
Como ainda vem
à baila, vez ou outra, a questão da nacionalidade de Eliseu Visconti
e do pouco brasileirismo da sua pintura, vou tratar rapidamente
do assunto. Reporto-me em primeiro lugar ao que já escrevi a respeito
no excelente livro “Eliseu Visconti e a Arte Decorativa” organizado
sob os auspícios da PUC, pela professora Irma Arestizabal.
Em resumo:
Eliseu d’Angelo Visconti nasceu em 30/07/1866 no Município de
Giffoni Valle e Piana, perto de Salerno, na Itália, localidade
de Santa Catarina. Veio com cerca de dez anos para o Brasil, trazido
por influência da Baronesa de Guararema, que seria depois sua
protetora e incentivadora. Veio juntamente com ele sua irmã Marianelli.
Já se achavam então no Brasil seu irmão Afonso e sua irmã Maria
Anunciata. Um outro irmão de nome Tobias falecera de febre amarela.
Fez todos os seus estudos no Brasil, inclusive os de arte, inicialmente
no Liceu de Artes e Ofícios, onde teve a honra de receber várias
medalhas das próprias mãos do Imperador D. Pedro II.
Foi
naturalizado brasileiro pela grande naturalização ocorrida logo
depois de proclamada a República. Com então 23 anos, optou tacitamente
pela nacionalidade brasileira. Obteve o prêmio de viagem a Paris
em 1892, depois de ser aluno distinto, durante cinco anos, da
Academia Imperial de Belas Artes, onde ganhou muitos prêmios e
medalhas, sendo por isto apelidado de o “papa-medalhas”.
Viajou
com passaporte dando-o como de Nacionalidade Brasileira, a qual
nunca lhe foi contestada. O passaporte emitido em 1893 pelo ministro
plenipotenciário Gabriel de Piza confirma a sua qualidade de cidadão
brasileiro. Outro passaporte fornecido pelo Cônsul Geral do Brasil
em Paris, a 3 de maio de 1920, confirma a “Nacionalité Brésiliène”
de Elyseu d’Angelo Visconti.
Faleceu
em 1944, possuidor da carteira de identidade nº 743.685 (2ª via)
dando-o também como de nacionalidade brasileira. Parece-nos portanto
não poder haver qualquer dúvida a este respeito. Muitos outros
artistas renomados considerados brasileiros não nasceram no Brasil,
e alguns vieram pra cá bem mais idosos. Citaremos como exemplos.
Castagnetto (Itália), os irmãos Bernadelli (México), Lasar Segall
(Lituânia), Emeric Marcier (Rumânia), Augusto Girardet (Itália),
Petrus Verdié (França), Carmem Miranda (Portugal), Oscarito (Grécia)
e outros que não me ocorrem, inclusive Fachinetti, considerado
por muitos como pintor brasileiro, embora tenha vindo da Itália
com 25 anos. Como escrevemos no livro de Irma, seria estranho
dizer que Napoleão não era francês. A nacionalidade provém mais
da vivência do que do local de nascimento que pode até ser casual.
Quase toda a trajetória do pintor Visconti ocorreu no Brasil.
Ele só voltou duas vezes à Itália e nas duas vezes por curto espaço
de tempo.
No que
se refere à pintura, alguns artistas são considerados, com justiça,
bem brasileiros, tais como Almeida Júnior, Rodolfo Amoedo, Batista
da Costa e Antonio Parreiras, por exemplo. Outros são tidos como
poucos brasileiros, entre os quais meu pai, segundo alguns críticos.
Existe da parte desses críticos um equívoco e uma injustiça, talvez
por não considerarem o conjunto da produção artística de Eliseu
Visconti.
Realmente,
Visconti, no início de sua carreira foi influenciado por Botticelli
ou Rafael em alguns dos seus trabalhos clássicos, como por exemplo
a “Dança das Oreadas”, “São Sebastião” e a “Juventú”,
que nem por isto deixam de ser obras primas de desenho e pintura.
Em outros trabalhos da sua primeira fase como retratos de “Gonzaga
Duque”, e de “Nicolina Vaz de Assis”, em auto-retrato
jovem, ou em “Maternidade”, o artista revela um academismo
semelhante ao dos excelentes pintores da escola francesa do fim
do século passado. Já em “Cabral Guiado pela Providência”
(Pinacoteca de S. Paulo), o artista já revela a sua própria personalidade,
fugindo do academismo, embora ainda não seja propriamente um impressionista.
Na década de 1910, Visconti já rompe francamente com o academismo,
inspirando-se nos impressionistas tanto nas paisagens como nos
retratos, o que não conseguiram outros artistas contemporâneos,
citados atrás. São testemunhas desta evolução as muitas paisagens
de Saint-Hubert como, “A volta do soldado”, “Cura do
Sol”, “Flores de Rua”, e muitos outros da mesma época.
Nos retratos dessa época poderíamos citar: “As Maçãs”,
“Retrato de Yvonne” (impressionista e pontilhista), “Moça
no Trigal”, “Tríptico Lar” e os retratos de família,
com cinco e quatro figuras, em que o pintor volta a certo academismo.
Se considerarmos
isoladamente os seus ensaios e realizações na Arte Decorativa,
tão bem ilustrados nos livros de Frederico Barata e Irma Arestizabal,
as grandes decorações realizadas no Teatro Municipal, no Conselho
Municipal, na Câmara dos Deputados do Rio de Janeiro, e na Biblioteca
Nacional, ainda persistem as influências das escolas francesas
e italianas, embora sempre impregnadas com um cunho perfeccionista
bem característico do artista, com enorme cuidado na finura do
desenho, na perfeição das formas e na delicadeza e harmonia dos
tons e dos valores.
Entretanto
na década de 1920 em diante, depois da sua volta definitiva ao
Brasil, até a sua morte em 1944, Visconti não para de evoluir,
e é nesta fase que se torna “bem brasileiro”, empenhando-se no
estudo da luminosa e vibrante atmosfera do Brasil.
São
dessas épocas as magníficas paisagens do morro de Sta. Teresa
e do morro Sto. Antonio, tiradas do seu atelier à Av. Mem de Sá
60, e as de Copacabana, como “A
Caminho da Escola”, a composição “A Visita” e o “Retrato
de Louise”, expressões do intenso colorido das nossas plantas
e da luz do nosso sol.
É bem
verdade que ainda no período anterior ao impressionismo, antes
de 1910, o pintor, em algumas telas, como a “Crysálida”
e “Aspectos do meu Jardim”, feitas em Copacabana, já se
revela um pintor bem brasileiro, pela luminosidade, vibração e
intensidade das cores. Somente esta fase de Mem de Sá e de Copacabana
bastaria para dar-lhe o título merecido de “pintor brasileiro”.
Mas o artista não para. Continua sempre estudando e pesquisando.
Nas
décadas de 1930 e 1940 surgiram as belíssimas paisagens de Teresópolis,
cheias de uma atmosfera luminosa, transparente e translúcida,
de radiosa vibração tropical. Ali sim, Eliseu Visconti consagra-se
definitivamente como pintor bem brasileiro.
Os tons
escuros ou ocres são banidos definitivamente de sua palheta. A
exemplo do grande Batista da Costa, as suas paisagens ostentam
nessa época inúmeras tonalidades diversas de verdes e azuis, mas
onde o academismo é superado por uma nova técnica, ou um novo
estilo que se poderia denominar de neo-impressionismo, pois vai
além do impressionismo. São dessa fase as paisagens “Descanso
no meu jardim”, “Um Ninho”, “Roupa Estendida”,
entre muitas outras.
Na fase
final o pintor Eliseu Visconti “descansa” e é também a época em
que seu temperamento explosivo se aquieta. Eliseu continua pintando
muito, agora com uma técnica eclética, voltando por vezes a certo
academismo nos retratos, mas um academismo livre, de pinceladas
seguras, libertas das peias do academismo e buscando sempre um
desenho perfeito e uma justa harmonia dos tons e dos valores que
fazem da sua pintura um deleite estético para os olhos.
Não
tivesse Eliseu Visconti pintado antes de 1920 seria considerado
um dos mais “brasileiros” dos pintores, mas como pintou mais antes
de 1920, influenciado por diversas escolas, deixa de ser “brasileiro”
no dizer de certos críticos, embora naquela época produzisse obras
primas. Eles não percebem que tal preparação antes dos anos 20
era necessária para produzir o artista de Santa Teresa, Copacabana
e Teresópolis com toda sua brasilidade.
Se considerarmos
o enorme esforço, a tensão intelectual e a força de vontade necessários
para um homem como meu pai evoluir de um academismo clássico do
século passado para um neo-impressionismo, às vezes quase abstrato
como em “Revoada de Pombos”,
sempre conservando uma técnica pictórica superior e irrepreensível
(salvo talvez em alguns estudos secundários), poderemos compreender
o temperamento nervoso e explosivo que mostrou na mocidade e meia
idade.
Isto
sem falar no enorme esforço físico, quase acima das forças humanas,
que lhe exigiram as grandes decorações, tais como o “Pano de Boca”,
o “Foyer e o Plafond” do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, as
decorações do Conselho Municipal, da Câmara dos Deputados e outras.
É o caso de se dizer: ninguém é de ferro.
Somente
na velhice, terminada a sua evolução, possuidor tranqüilo de uma
técnica eclética e superior, o homem pôde descansar e serenar,
relaxando os nervos e deixando transparecer sua personalidade
verdadeira de artista, de filósofo que no fundo era. Houve porém
em plena velhice do artista, quando já contava de 68 a 70 anos,
uma volta à mocidade. Foi quando convidado pelo engenheiro Roberto
Doyle Maia, por ocasião da reforma do Teatro Municipal de 1935
a 38, para executar novo proscênio no Teatro, pois o que fora
pintado por ele, por volta de 1905, iria ficar encoberto, devido
às obras. Já idoso, mas ainda em plena forma física e mental,
Eliseu Visconti tornou a subir nos andaimes, tornou a realizar
uma decoração enorme, belíssima composição, representando as harmonias
musicais personificadas em belos corpos femininos. Tal decoração
nada fica a dever às anteriores, executadas em plena mocidade.
Felizmente sempre pode ser vista por todos, ao contrário do pano
de boca, que só muito raramente é descido.

Meu pai, Eliseu
Visconti, era o que se pode chamar uma forte personalidade. Homem
extrovertido e expansivo, era por isto mesmo de conversa agradável,
interessante e dominava facilmente os circunstantes onde quer
que se achasse. Era o oposto do tímido. Tinha a critica fácil,
mordaz e contundente, quer sobre as pessoas quer em relação às
instituições, costumes, modas ou acontecimentos.
Possuía idéias
próprias e até radicais sobre muitos assuntos e externava sua
opinião com franqueza e desembaraço, e às vezes até de modo inoportuno.
Este modo de ser provinha do seu temperamento extremamente sensível
e emotivo, característica esta que, ao lado de uma grande força
de vontade, persistência e de uma enorme capacidade e disciplina
de trabalho, permitiu que se tornasse um grande artista.
Tais
qualidades porém, geravam nele certo destempero de linguagem que
explodia quando se sentia frontalmente contrariado ou injustiçado.
Se, pelo contrário, apreciava muito uma pessoa ou um trabalho,
desmanchava-se em elogios ou palavras encorajadoras.
Como
é fácil compreender, tal temperamento, explosivo e extremado,
valeu-lhe inimigos por um lado,
e por outro lado não poucos amigos e admiradores. Por mais
incrível que pareça, perduram até hoje os efeitos dessa dupla
influência. Devo esclarecer que estou me referindo ao temperamento
do meu pai quando se encontrava na força da idade.
Depois
de 65, 70 anos, o seu modo de ser modificou-se sensivelmente:
tornou-se muito mais comedido e circunspeto, e até um tanto retraído,
sendo que nos últimos cinco ou seis anos de sua longa vida, interrompida
de modo trágico e extemporâneo, passou a ser um homem tranqüilo,
agradável e gentil, tanto com os amigos, como com os próprios
desafetos. Ele soube assim evoluir, tanto na sua pessoa como na
sua arte.
Eliseu
Visconti foi um homem robusto, atarracado, de estatura um pouco
abaixo da média. Tinha a barriga das pernas de tal modo grossas
e musculosas que chamavam a atenção quando se achava de “short”.
Era o resultado de milhares de horas a pintar de pé, posição que
preferia, para poder recuar a vontade e observar os efeitos na
tela. Dado o seu temperamento explosivo, de “pavio curto”,
envolvia-se freqüentemente em discussões e bate-bocas, na rua,
nas conduções ou nas repartições. São inúmeros os episódios interessantes,
tragi-cômicos ou pitorescos em que se envolveu no Rio, em Paris,
em Saint-Hubert ou em Teresópolis. Não me alongarei em divulgá-los.
Era tido como um “original”, ou seja, como uma pessoa singular,
que não acompanha as outras, e ele mesmo fazia questão de assim
ser. Apesar de sua emotividade e sensibilidade a flor da pele,
não lhe faltava coragem física que chegava às vezes até a temeridade.
Dificilmente acreditava na possibilidade de um perigo real. Lembrarei
aqui alguns episódios que revelam o seu caráter, voluntarioso
ou audacioso.
Por
ocasião da revolta da armada no Rio em novembro de 1910 (eu tinha
então 4 meses), os revoltosos bombardearam a cidade. Minha mãe
contava que, nesse dia, não houve ninguém que lhe fizesse sair
do seu atelier à Av. Mem de Sá 60, o qual sendo mais alto que
o prédio da vizinhança, oferecia um alvo fácil. As balas passavam,
tendo algumas explodido próximo à Rua Riachuelo, aonde minha irmã
ia ao colégio.
Em 1915
meu pai meteu-se num transatlântico, em demanda ao Brasil, deixando
a família em Paris e levando a bordo, enrolada, a decoração do
Foyer do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Essa decoração fora
executada entre 1913 e 1915, no seu atelier na Rua Didot, e devia
ser entregue sem falta. Naquele período da Primeira Guerra Mundial,
os submarinos alemães conseguiam torpedear um navio aliado em
cinco. Atravessar o Atlântico era pois um verdadeiro jogo de roleta
russa. Se escapasse com vida, meu pai perderia três anos de trabalho,
além das despesas.
A cidade
de Paris, onde nos achávamos entre 1914 e 1918, era bombardeada
freqüentemente por “Zepelins” e aviões alemães e, só descemos
para o abrigo duas vezes, uma delas até com o pintor Marques Junior
que nos visitava freqüentemente. Das outras vezes, meu pai se
contentava em apagar as luzes, enquanto os vizinhos desciam para
o subterrâneo.
No levante
do Forte de Copacabana em 1922, granadas explodiam às seis da
manhã num barranco da ladeira, próximo à nossa casa, com um barulho
atroador. Copacabana quase inteira fugiu, mas às três da tarde
meu pai ainda se obstinava a permanecer em nossa casa à Ladeira
dos Tabajaras, antiga Ladeira do Barroso. Só consentiu que saíssemos,
com as malas, quando vieram avisar-nos que o último bonde ia atravessar
o Túnel Velho (Alaor Prata). Depois o túnel seria fechado. Bem
fizemos em fugir!. Quando voltamos três dias depois, o chão da
ladeira estava todo ensangüentado: havia marcas de balas nas paredes
da casa e achamos no jardim dezenas de cartuchos vazios de fuzil
Mauser. O nosso jardim e a casa, que dominavam o primeiro trecho
da ladeira, tinha servido de fortaleza para um grupo de soldados
que travou combate com outro grupo que subia a ladeira, julgando
que eram revoltosos. Houve mortos e feridos,
Certa
vez, quando eu era ainda criança, vi meu pai discutir asperamente
no jardim sem demonstrar receio, com um homem que manipulava um
estilete próximo ao seu peito. É possível que a minha presença,
como testemunha, tenha-lhe salvo a vida. No meio de maiores tempestades
metia-se no jardim, com os pés dentro d’água, debaixo das árvores,
com grande risco de ser atingido por um raio, “para observar o escoamento das águas”. Fez isto muitas vezes
apesar das advertências alarmadas dos membros da família.
De uma
feita foi tirar com a maior calma um homem fortíssimo escondido
debaixo da cama da empregada. Não se incomodava muito em trancar
à noite as portas e janelas da casa. Em geral era eu que me encarregava
disto. Entretanto nunca possuiu ou carregou uma arma, qualquer
que fosse. Do que narramos atrás não se deve concluir que não
se preocupava com a família. Apenas não acreditava no perigo,
julgando-se talvez protegido, com a sua família, por uma força
providencial, como acontece com certas pessoas carismáticas.
Não
obstante as suas explosões ocasionais e exageros verbais, meu
pai era um homem correto, honesto e bom, extremamente cioso dos
compromissos assumidos, que cumpria à risca. Como um dos muitos
exemplos desse modo de agir, podemos mencionar a cópia que fez
em tamanho natural em 1895, do quadro de Velasquez, “A Rendição
de Breda” ou “As Lanças”. Como pensionista do estado só tinha a obrigação
de fazer uma cópia em tamanho reduzido. Tal cópia perfeita e com
as dimensões do original ficou exposta na entrada da antiga Escola
Nacional de Belas Artes, à Av. Rio Branco, por mais de sessenta
anos. Quando foram retirá-la, há cerda de vinte anos, o fizeram
sem o devido cuidado, e a tela apodrecida partiu-se em muitos
fragmentos. Até hoje tal tela, de valor inestimável, medindo cerca
de três metros por quatro, não foi restaurada, o que é uma pena.
Eliseu
Visconti era dedicado à família e afetuoso com a esposa e os filhos.
Como é sabido, retratou de preferência os membros da família.
Ensinou minha mãe e minha irmã a pintar. Certa vez, no meio da
noite, meu irmão Afonso que tinha então cinco ou seis anos, vomitou
de repente enorme quantidade de sangue. Ficamos apavorados pensando
que tinha uma grave lesão. Meu pai saiu às duas da madrugada (naquela
época não tínhamos telefone nem médicos de plantão), e trouxe
o Dr. Campos da Paz, de saudosa memória. Felizmente não era nada
grave como supúnhamos. O menino sangrava pelo nariz e engolira
todo sangue durante o sono provocando o vômito. Quando minha irmã
adoeceu em conseqüência das seqüelas da gripe espanhola, que quase
a matou em Paris, meu pai comprou logo uma casa em Teresópolis,
o que permitiu o seu restabelecimento.
Não
era por demais severo ou rígido conosco, ao contrário do que se
poderia esperar de um temperamento radical como o dele. Não nos
cobrava notas altas, nem classificações honrosas no colégio. Achava
que se devia deixar a natureza seguir o seu curso e nunca contrariá-la.
Neste ponto, minha mãe e minha irmã (a qual por ser muito mais
velha do que eu e meu irmão, nos monitorava muitas vezes), eram
mais exigentes e severas. Apesar disto, eu e meu irmão fomos alunos
bastante aplicados e comportados tal como minha irmã também o
fora. Meu pai nunca ficava doente; não me lembro tê-lo visto resfriado,
com dor de cabeça ou qualquer outro incomodo. Durante cerca de
sessenta anos de sua vida ficou somente uns seis dias de cama.
Três por cálculos nos rins e três por uma intoxicação. Em ambos
os casos tratados pelo Dr. Campos da Paz.
Eliseu
Visconti dedicou-se inteiramente à sua arte sem nunca se comercializar,
produzir por produzir. Pintava pesquisando, por prazer e inclinação,
procurando sempre evoluir. Nisto consistia seu esforço principal.
Apesar disto, não produziu tão pouco como alguns dizem. A julgar
pelos quase trezentos trabalhos expostos na exposição retrospectiva
de 1949, deve ter executado cerca de seiscentas telas pequenas
ou médias, denominadas “pintura de cavalete”, sem contar os inúmeros
desenhos e estudos, os painéis de arte decorativa, e principalmente
as grandes decorações que exigiram dele enorme tempo e esforço.
Meu
pai não era propriamente um intelectual pois, além das artes plásticas,
não se aprofundou muito na literatura ou em outras ciências. Conhecia
bem solfejo e rudimentos de música, pois antes de entrar para
o Liceu como aluno de desenho e pintura teve professor de música,
o qual largou para não ficar surdo, pois toda vez que errava uma
nota o professor dava-lhe um tapa no ouvido. Entretanto, achava
tempo para ler muito, principalmente livros e revistas sobre arte.
Deixou cadernos e mais cadernos cheios de anotações sobre suas
leituras, muitas vezes acompanhadas de desenhos.
Apreciava
muito os artistas e filósofos alemães como Goethe, Nietzshe
e certos franceses como Edouard Schuré e outros. Gostava
muito da arte japonesa e chinesa, e chegou a possuir uma coleção
grande de livros e gravuras em papel de arroz que, infelizmente,
se perderam ou foram roubados. Lia e colecionava muitas revistas
sobre arte contemporânea, alemãs, francesas e italianas.
“Não
se deve contrariar a natureza” – “Deve-se deixar a natureza
agir” – “O sol brilha para todos”. – eram algumas das
suas máximas preferidas. A última, referindo-se às diversas escolas
avançadas de pintura como expressionismo, abstracionismo, cubismo,
concretismo, etc..., que respeitava, embora não as acompanhasse,
numa macaqueação, que para ele não teria qualquer sentido.
A nossa
casa em Copacabana, à Ladeira dos Tabajaras 155 (antiga Ladeira
do Barroso 29), teve sempre uma ampla sala de estar que se abria
largamente para o jardim, mobiliada com móveis clássicos estilo
império, que meu pai obtivera de José Mariano Filho em troca de
quadros, e decorada também com os quadros da família e paisagens
suas. Esta sala de mais de 70m² formava um conjunto impressionante
e dela se avistava o nosso jardim, onde havia mangueiras, jaqueiras,
tamarindeiros, limoeiros, abacateiros, etc. Esta casa era retangular,
bela na sua singeleza, e cingida regiamente por belíssimas trepadeiras
Ipomeia.
O nosso
jardim vivia cheio de crianças da vizinhança que vinham brincar
conosco. Era também alegrado por gatos e cachorros, que meus pais
sempre tiveram. As últimas grandes borboletas azuis de Copacabana
refugiaram-se em nosso jardim, onde passamos a infância, e onde
meus filhos ainda brincaram bastante.
É
este o resumo que consigo fazer da personalidade e do temperamento
do meu pai e da sua obra de pintor, a qual não me cabe analisar
em profundidade, pois não possuo títulos para tal; muitos outros
já o fizeram. Trata-se de um simples esboço despretensioso que
me atrevo a fazer por ter sido solicitado nesse sentido. Meu objetivo
principal ao fazê-lo foi lembrar que meu pai, além de um grande
pintor, foi também um pintor brasileiro em todos os sentidos.
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