
A exposição
comemorativa dos estudos, croquis, detalhes, conjuntos
componitivos da obra de Eliseu Visconti para ornamentar o nosso
primeiro teatro, trouxe, de novo, à atualidade, as características
desse mestre.
De um exame rápido,
logo se poderá concluir num reviver do conjunto de sua obra, como
Eliseu Visconti encerra, de fato, o período orgânico da pintura
brasileira. Com o desaparecimento de Rodolfo Amoêdo, Eliseu
Visconti, Lucilio de Albuquerque somente nos resta a figura
singular de Rodolfo Chambelland, cuja a obra se assinalou pela
riqueza do colorido, pela eloqüência atraente da composição,
pela análise dos ritmos que traduzem o movimento expressivo.
De tal sorte, e
depois de Rodolfo Chambelland – somente Candido Portinari se
inscreve na galeria dos grandes artistas. Seja qual for suas
preferências, suas oportunidades na técnica – não se poderá
negar suas peculiares e valiosas qualidades de artista, pela
concepção e pela execução.
Com a morte de
Eliseu Visconti perdeu o Brasil a última de suas destacadas
figuras do período orgânico da pintura. Ele foi, talvez, a
retina mais sensível, mais aguda que a pintura tenha conhecido no
Brasil. Memória visual preciosa e tenaz, servido por uma técnica
em constante aperfeiçoamento, o mestre se inscreveu, na era
contemporânea, como um pintor, um artista, de marcada culminância
em qualquer escola de pintura moderna.
Ao lado desse dons
patrimoniais, possuía ainda o mestre, uma particular sensibilidade;
e assim, tirava de sua arte os maiores prazeres de sua vida; e
é esse, de certo, o fator que nos leva a encontrar sempre, em
sua pintura, nos diferentes temas que preferia, seja na figura,
seja na paisagem ou ainda no desenvolvimento dos painéis decorativos,
a mesma fatura feliz, quase alegre, onde parece que tudo foi executado
com naturalidade espontânea. E conseguia, assim, Eliseu Visconti
realizar a compreensão e o domínio mais raro que se apresentam
ao homem: a unidade entre a natureza física e moral.
Para ele o mundo
era uma sucessão de imagens coloridas. Nunca via, primeiro, os
seres e as coisas na sua entidade diferenciada da espécie ou nos
seus atributos de começo, só via manchas de cor. E daí partindo
chegava, então, a identificação comum. Claro que, com essas virtudes,
devemos também assinalar que não o atormentavam pesquisas de maior
penetração no domínio espiritual. Ele foi, realmente, um pintor,
para quem a pintura era alguma coisa nela mesma, sem outros destinos
de caráter literário ou mesmo filosófico.
Por mais de um
título, como se compreenderá, Eliseu Visconti tem destacado lugar
na arte brasileira. O mestre era conforme já afirmamos em outra
oportunidade, um politécnico, no legítimo sentido ou termo.
Não seria difícil encontrar os marcos de sua evolução, nesse particular,
em cinco estágios que poderiam ser assim classificados: a) – período
inicial: caracteriza-se por influências disciplinares que
se reúnem na expressão ítalo-francesa até 1880; b) – período prérafaelista,
mas de manifestação francesa, lado Rosa Cruz, teoria de Sar Péladan
e prática de Odilon Redon e François Flameng, até quase os últimos
anos do século; c) – período divisionista (predomínio decorativo)
tendência Seurat, Signac e, particularmente, Henri Martin, a partir
dos primeiros anos deste século; d) – período impressionista (propriamente
dito), e que se divide ainda em duas fases: 1ª) – ramo Manet,
de feitio espanhol no sabor da pasta por obscura interferência
de Velásquez; 2ª) – ar livrismo, feição Claude Monet, e que em
diversas alternativas o acompanharam até o fim, com aplicação
ora do divisionismo, ora do impressionismo, conforme
a natureza da pintura.
Mas por todos
estes países da técnica, Visconti sempre teve, em diversas línguas,
a mesma expressão; manteve um cunho de evidente e inconfundível
individualidade. Tais variantes constituíram buscas ansiosas para
encontrar a realidade profunda da vida. De tal sorte, não se
trata de um ecletismo de sentimento, como sucede com os multifários
imitadores que apenas procuram ludibriar o observador recompondo
com certa habilidade o que os outros já viram, sentiram e
exprimiram.
O politecnismo
do mestre brasileiro acentuava apenas que sua arte era contemporânea
e que se revelava impressionada pelas conquistas modernas de ordem
científica, no domínio da técnica peculiar à pintura.
Para atestar
semelhante afirmativa, bastaria assinalar o problema da paisagem
em que, somente no fim da vida de Eliseu Visconti se aproximou da
verídica dominação.
O artista brasileiro
era um pintor ótico: queremos dizer que para ele, primeiro, se
manifestava a cor e só depois a estrutura. As formas eram manchas
coloridas, antes de serem arquiteturas desenhadas. De tal sorte
só haviam volumes da natureza, que as cores delimitavam e criavam
animada palpitação de vida pela mancha. Suas pastas claras e luminosas,
untuosas, às vezes densas, nessa claridade mesma, traduzem uma
elasticidade úmida, como se fossem terminadas na véspera. Referimo-nos
a penúltima fase de sua obra.
Tal frescura
palpitante é um revide, um instantâneo, como se o artista tudo
fizesse num grande esforço fácil.
Para a nossa
incipiente formação artística, e onde o espírito crítico
geral ainda não esta organizado, o exemplo da vida artística de
Eliseu Visconti teve um alto, empolgante e significativo
valimento. O destino de sua obra de arte ficará, nas páginas da
pintura brasileira, como exemplo.
Não tem ampla
aplicação, a pintura decorativa, entre nós. Raros são os
Mecenas. O próprio Estado é avaro dessas composições parietais.
Acreditamos que
além de Zeferino da Costa, na Candelária, Rodolfo Amoedo, no Palácio
Municipal, e no teatro de igual nome, e de Rodolfo e Carlos
Chambelland, na Câmara dos Deputados, só a obra de Visconti no
Teatro Municipal se alinha nesse teor de alto descortínio
ornamental.
Mas de todos
esses painéis decorativos – não se deixará de reconhecer a
culminância dessa especialidade e na obra mesma de Eliseu
Visconti.
Além das áreas
a povoar, dos locais privilegiados, do destino dos edifícios –
três fatores de excelência, – (como na decoração do Teatro
Municipal,) Visconti desenvolveu, com largueza, com ampla
visualidade, uma técnica nova, e com qualidades apropriadas aos vários
pontos de vista em que
ela seria examinada.
Por outro lado,
a influência impressionista, de ação remota, e a
divisionista de eminência cromática, – concorriam para
que uma pintura de vestes claras, de linguagem fácil, de mobilidade
discursiva, – realizasse a dupla finalidade de vestir ornamentalmente
os campos livres, e de, ao mesmo tempo, criar a sugestão ótica,
pelos temas preferidos, onde o sentido do drama lírico
se manifestasse com particular evidência.
Desse feitio, o
artista desde logo, criou clima propício às cenas que pintou, no
Teatro Municipal. E, assim, se conjugam, na realidade fictícia do
palco, com as luzes das gambiarras, e na realidade idealizada do
teto, do foyer, do painel que encima o proscênio, como, de
inicio, no próprio pano de boca, – os atos cênicos dos
personagens tanto na aparência do espetáculo, como na aparência
figurativa da pintura ornamental: ambas sugerem instantes da vida.
Talvez seja essa
a maior virtude das obras de Visconti no Teatro Municipal: haver
ficado na mesma atmosfera da arte teatral: as figuras e os
figurantes vivem de um ação maior que sua decoração para ali
transpõe.
De certo, que se
poderia, então dizer, no bom sentido, que o pintor não se esquivou
do poder de sedução plástica dos cenários: no palco e no teto,
na cartela do proscênio, todas as figuras se conjugam para o tônus
ótico maior na integração do drama que se desenrola nas duas unidades
especiais.
Em regra, a
pintura decorativa é facilmente interpretada como a pintura
convencional. Assim se considera, por exemplo, fora desse gênero,
no Pantheon de Paris, a bela contribuição de Jean Paul Laurens,
toda ela é tomada como verdadeiros quadros e não como painéis
ornamentais.
As convenções
que se usam na pintura parietal permitem maior liberdade na
interpretação. Por outro lado, o colorido poderá variar,
livremente, e não corresponder à visão naturalista da
realidade.
Aliás, o neo-impressionismo,
de cuja teoria se veio a servir Eliseu Visconti, para a decoração
do teatro Municipal, – se lhe oferecia cheio de verdadeiras
novidades, naquela época (1906).
De caráter sumário,
seria possível determinar os fatores que levaram o pintor
brasileiro a preferir, para aquele mister, a escola de Seurat e
Paul Signac. Preliminarmente, a exaltação da cor pura, a qual
Visconti não se subordinou muito. Depois – aquele princípio
liberal a que já nos referimos e que se poderá assim,
sintetizar: não copiar a natureza, dela tomar apenas ligeiras
indicações que dêem realidade ao objeto. Como se poderá
verificar, pela atual exibição, o artista se serviu dela com
extrema cautela. Por sua vez, também não esqueceu, nesse
postulado, que a pintura era a arte de se furar uma superfície...
Mas não abusou dos esforços, nem das deformações, que a
pintura plafoné poderia justificar.
No jogo das
simetrias entre as claras zonas e as zonas escuras. Visconti
procurou realizar o equilíbrio do sentido de que a massa de luz
devesse ser maior ou menor que a massa de sombra.
Assim, as tonalidades
no fundo, não seriam mais obtidas por manchas autônomas, de validade
própria, – e sim por meio de pontos pequenos, mais ou menos do
mesmo tamanho, de forma esférica. Eles agiriam sobre os olhos
do espectador. A retina faria, então, a necessária mistura ótica,
para a síntese significativa.
Como se
compreenderá, a decoração parietal foi uma considerável
empresa que tomou boa parte da atividade do mestre brasileiro. Nem
só quanto à concepção, propriamente dita, mas, principalmente,
no ingente esforço para a execução do trabalho colossal e que
se deveria maroufler em locais tão altos e distantes dos
pontos normais de observação.
Os três elementos
essenciais, de boa visibilidade, deveriam ter absorvido as energias
do mestre ainda, de seguida aos desenhos dos cartões povoados
de figuras em esboços, e, mesmo depois, a quando se empenhou na
execução no substrato definitivo que deveriam ser coladas nas
parietais a maroufler.
Naturalmente que
ele teria que conjugar os três fatores conhecidos de boa
evidencia: o relevo, o ponto de vista e a iluminação.
A observação
para o teto, na perspectiva plafoné, oferecia reais dificuldades.
Logo de inicio se devia considerar as peripécias do ponto de
vista do observador que está na platéia. E o mestre não se
afastou dessa obrigação, tanto que as rondas de figuras que
povoam aquele ponto ornamental – entram num movimento circular,
permitindo em qualquer situação, que se veja, cada vez que se
olha, a roda festiva das dançarinas iniciar o airoso movimento
coreógrafo.
Com a remodelação
do Teatro Municipal, em 1938, todo o friso que guarnecia o lintel
da boca de cena foi destruído. O painel de 19 metros, reclamava
perspicaz e atento esforço; o mestre aos 71 anos de idade,
conseguiu ultimá-lo, nele se notando apenas pequenas diferenças
na modalidade contornal.
Como se sabe, a
pintura decorativa ao Teatro Municipal ocupa um período que vai
de 1906 à 1908 para o "plafond" da sala, pano de boca
e friso primitivo (que desapareceu, coberto pelo novo que foi
executado em 1935), e que se estende, de 1915 à 1917, para o "foyer".
Finalmente, tivemos a nova composição do friso e a restauração
do pano de boca, que é de 1935. De tal sorte, há mais de quarenta
e quatro anos que a maioria daquelas obras foi executada. Mais
de três décadas constituem período suficiente para que se verifiquem
os flagelos produzidos pelo tempo. Com vinte anos, muitos quadros
enegrecem e se adulteram pelas "craqueluros" de toda
sorte, e, principalmente, pela alteração das cores.
No entanto, a pintura
monumental de Visconti, no Teatro Municipal, tanto a têmpera,
do telão do proscenio, como a óleo, das diversas partes "marouflées"
(Plafond da sala de espetáculo, friso do proscenio, foyer) dispõe
de boa conservação como seu trabalho fosse ultimado há pouco tempo.
Naturalmente, que a epiderme se apresenta mais afinada, mais sutil
na sua harmonia, colorida, pela ação patinante do tempo.
As pastas se apresentam
ainda úmidas, como emulsionadas, numa flagrante "mate",
onde se evidencia a segurança da arquitetura dos valores, a variedade
dos arabescos decorativos. A pintura é sólida e revela grande
mestria no seu próprio preparo material, pois que em quarenta
e quatro anos ela nada sofreu, mantendo sua opacidade. É privilégio
pouco comum. Para as demais composições o mestre adotou o óleo
que, na sua técnica é divisionista, deu aqueles claros e frescos
motivos ornamentais que tanto dignificam a arte brasileira.
Eliseu Visconti
se assinalou pintor inconfundível e poeta no bom sentido do termo.
Sua imaginação plástica se irmanava com sua visão abstrata: o
mestre via para lá das realidades limitadas, com um ardor, uma
eloqüência musical que o tornaram admirável criador de poemas
significativos.
Bastaria, para
atestar aquela dominante qualidade, a composição do Pano de Boca;
desde a figura central até os grupos laterais que se desenvolvem
num largo movimento: em tudo a inspiração se alevanta e toma surtos
de pura e encantadora poesia. A decoração do "plafond"
da sala traduz o cortejo das "Horas" que passam numa
infinita sucessão de alegrias, trazendo a ronda dos destinos humanos:
A Aurora acarinha o dia, e as Horas entrelaçadas passam:
a Noite aparece seguida Cruzeiro do Sul... Todo este poema
se desenvolve e povoa 155 metros quadrados de tela "marouflée"...
Eliseu
Visconti poderá figurar, com essa obra, na pauta da história da
arte, entre as poderosas naturezas da pintura mundial dos nossos
tempos.
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