
"Quem
ocupa a presidência deste Theatro deve ter a exata noção
do valor desse fantástico patrimônio, o pano de boca,
os afrescos, enfim, todas as peças e detalhes da decoração
interna, que deverão ser preservados....Visconti, para
o Brasil, é o que Rafael ou Da Vinci representam para a
Itália."
Dalal Achcar
Foi
Arthur Azevedo quem primeiro sonhou com a criação de uma companhia
teatral subvencionada pela Prefeitura Municipal do Distrito Federal.
Tinha o escritor e teatrólogo a convicção de que somente a construção
desse teatro poderia interromper a má fase em que se encontravam
as artes cênicas naquela segunda metade do século XIX.
A
insistência de Arthur Azevedo, principalmente através de seus
artigos na imprensa, resultou na criação da Lei Municipal, em
1894, para construção de um teatro municipal.
Mas
seria somente em 1904 que a Comissão Construtora da Avenida Central
e o Prefeito Municipal Francisco Pereira Passos definiriam o local
da construção do Theatro Municipal. A majestosa edificação fazia
parte de um programa de grandes obras realizadas no Rio de Janeiro,
entre 1902 e 1906, durante o mandato do Prefeito Pereira Passos,
com o objetivo de modernizar a capital da República. O Theatro
Municipal seria um símbolo da modernidade importada de Paris,
ideal de cidade desde a reforma empreendida pelo Barão Eugéne
Haussmann.
Ainda
em 1904 foi realizada a licitação para o projeto do Theatro, vencida
pelo Engº Francisco de Oliveira Passos, filho do Prefeito Pereira
Passos.
No
ano seguinte, Eliseu Visconti, que se encontrava em Paris, recebe
carta de Francisco Guimarães com o seguinte texto:
“Rio, 16 de junho de 1905
Meu caro amigo e Sr. Visconti,
Sei por seu irmão que goza de excelente
saúde, e, pelos jornais, que tem expostos dois belos retratos
no Salon. Desejo-lhe mil venturas.
O Engº Francisco de Oliveira Passos, autor
do projeto e construtor do Theatro Municipal, encarregou-me de
escrever-lhe pedindo o seu auxílio na execução dessa obra que
ele deseja que seja digna da bela capital que será o Rio de Janeiro.
O teatro está se fazendo e cresce a olhos vistos, e vai ser um
primor. O Passos diz e, com razão: a idéia principal é minha mas
quero que os artistas brasileiros dignos desse nome, liguem os
seus nomes à obra. Perguntando-me quais eram na minha opinião
os artistas capazes de decorar o Teatro, eu disse em presença
de várias pessoas conhecidas, e mais tarde em minha casa: - Só
conheço dois: o Visconti, em primeiro lugar, e o Henrique Bernardelli
em segundo. – Mas o Visconti está longe. – Tanto melhor, está
em Paris, refrescando e consolidando as idéias, vivendo enfim.
Ninguém como ele trará melhores projetos. – Pois você está autorizado
a escrever ao Visconti dizendo-lhe que venha e que traga já algumas
idéias, porque eu vou incumbi-lo de decorações importantes para
o Theatro.
Já comuniquei esta minha iniciativa ao seu
irmão Ângelo, e hoje ao nosso amigo Vieitas, que ficou contentíssimo.
Está cumprida a minha missão e espero que
será coroado de êxito, para bem da arte brasileira, da qual é
o amigo ornamento brilhante. (...) Adeus. Até breve. Disponha
do (...) admirador e amigo, Francisco Guimarães. Quitanda 85.”
Mais
tarde, em carta dirigida a Francisco de Oliveira Passos, Visconti
diria:
“Paris, 04-10-1905
...Os projetos do Theatro me encheram de
entusiasmo pelo valor real do edifício em si próprio. Não oculto
o meu contentamento, o dizer-me que tomará na devida consideração
a minha contribuição artística.
Sempre bercei um sonho: o de um dia realizar
um conjunto de arte, em um edifício importante.
Terei chegado a tempo?
V. S. me diz que sim.
O Foyer, os Torreões laterais, a Clarabóia
da grande escada e os Corredores que dão acesso ao Foyer, me parecem
dignos de um conjunto artístico. Quanto ao Pano de Boca, achei
o tema interessante, vou desenvolvê-lo.”
O
pintor tinha consciência do seu papel e da grande responsabilidade
que lhe cabia, de tal modo que, na resposta ao Engº Francisco
de Oliveira Passos, Visconti visualiza nos projetos do Teatro
muitas possibilidades, dentre as quais a pintura do foyer, a qual
executaria somente oito anos depois. (Valéria Ochoa Oliveira em
Dissertação de Mestrado Um
olhar sobre as Musas de Eliseu Visconti – A pintura do foyer do
Teatro Municipal do Rio de Janeiro - Universidade Federal
de Uberlândia, 2004).
No
início de 1906, Visconti vem ao Brasil submeter à aprovação do
Prefeito Pereira Passos as esquisses (esboços) das decorações
do Theatro Municipal. Naquele ano, os trabalhos contratados ao
artista pela Comissão Construtora do Theatro referiam-se ao Pano
de Boca, à decoração do plafond (teto) sobre a platéia e ao friso
sobre o proscênio (decoração acima da boca de cena), além de dois
triângulos menores no teto, próximo ao palco.
O
contrato firmado pelo artista com a Comissão obrigou Visconti
a hipotecar um imóvel de seu irmão, Afonso Visconti, situado à
Rua Visconde de Itaúna nº 2, no Rio de Janeiro. O não cumprimento
dos prazos ou a desistência da encomenda por parte do pintor resultaria
na execução da hipoteca.
Eliseu
Visconti não foi o único pintor convidado para decorar o Theatro
Municipal do Rio de Janeiro. Outros notáveis artistas da época,
Rodolpho Amoedo e Henrique Bernardelli, contribuíram com seu talento
para a beleza do nosso maior teatro. Rodolpho Amoedo executou,
em 1916, oito pinturas nas rotundas externas do prédio, reproduzindo
cenas de dança de diversos países. Já Henrique Bernardelli, executou,
em 1908, as pinturas dos tetos das duas rotundas do foyer, representando
apoteoses à música e à poesia. Mas certamente “é
Visconti a estrela mais brilhante na constelação de pintores que
enriqueceram com suas obras o interior do Theatro Municipal”.
(Pedro Xexéo – Theatro Municipal – 90 anos – 1999).
O
próprio artista, em documento encaminhado em 1938 a Oswaldo Teixeira,
Diretor do MNBA á época, definiu as decorações do Theatro Municipal
como sua mais importante obra. Importante e majestosa, pois segundo
Nagib Francisco, a obra completa de Visconti no Theatro Municipal
soma 640 m2, área apenas 10% inferior
que toda a obra de Miguel Ângelo na Capela Sistina.
O
Theatro Municipal do Rio de Janeiro foi inaugurado em 14 de julho
de 1909 com um discurso do poeta Olavo Bilac, entregando à
cidade "o seu mais belo edifício, com um esplendor
de mármore e bronzes". E o poeta refere-se ao Theatro
como a coroa da rainha amada, a cidade do Rio de Janeiro:
“O
teatro é ainda hoje o salão nobre da cidade, o seu
fórum social, a arena elegante em que se travam os torneios
da moda, da graça, da conversação e da cortesia.
É por isto que, a fim de enriquecê-lo de encantos,
todas as artes se aliam e [se] esforçam. (...) para ataviá-lo
congregam-se a engenharia, a arquitetura, a pintura, a escultura,
a marcenaria, a cerâmica, a indumentária. É
que dentro dele reside toda a vida civilizada; tudo quanto ela
tem de sério e de amável, de forte e de meigo, de
deslumbrante e de encantador, se resume e se condensa dentro dele:
no palco impera o pensamento, na sala impera a beleza...
Faltava-te este palácio, cidade amada! No teu renascimento
esplêndido, faltava esta afirmação do teu
gênio artístico!
E eu abençôo (...) tua coroa de rainha!”
Além
do discurso do poeta, a elite da capital brasileira, tendo o presidente
Nilo Peçanha à frente, pôde assistir à
apresentação de duas óperas nacionais -"Moema",
de Delgado de Carvalho, e "Insônia", de Francisco
Braga - além da comédia "Bonança",
de Coelho Neto.
Para
essa noite de gala, Eliseu Visconti, presente em todas as pinturas
da sala de espetáculos (pano de boca, friso sobre o proscênio,
triângulos do teto e plafond), projetou uma série
de moringas em estilo art-nouveau, colocadas nas frisas e nos
camarotes do Theatro. Ao término da cerimônia de
inauguração as peças desapareceram, não
se sabendo ao certo o número de moringas produzidas originalmente.
Conta a história que os ocupantes das frisas e dos camarotes
as levaram como brinde. O Projeto Eliseu Visconti localizou apenas
nove dessas antigas e raras moringas, junto a colecionadores particulares.
[CONTINUAR]
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THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

TEATRÓLOGO ARTUR AZEVEDO
- RETRATADO POR MODESTO BROCOS

PREFEITO PEREIRA PASSOS RETRATADO
POR ELISEU VISCONTI

ENGº FRANCISCO OLIVEIRA
PASSOS

LARGO DA MÃE DO BISPO

CONSTRUÇÃO DA AVENIDA
CENTRAL

TEATRO MUNICIPAL-INÍCIO
DAS OBRAS

AVENIDA CENTRAL, O CONVENTO D'AJUDA
E OS BARRACÕES DAS OBRAS DO THEATRO MUNICIPAL-c. 1905

TEATRO MUNICIPAL EM OBRAS - 1905

THEATRO MUNICIPAL EM OBRAS

THEATRO MUNICIPAL EM OBRAS

THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

INAUGURAÇÃO DO
THEATRO MUNICIPAL-1909

THEATRO MUNICIPAL RECÉM
INAUGURADO

THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO

SALA DE ESPETÁCULOS DECORADA
POR VISCONTI
 MORINGA PROJETADA PARA A INAUGURAÇÃO
DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO DE JANEIRO
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