
Chegando ao Brasil
com sua família em junho de 1920, Visconti já realiza uma exposição
individual na Galeria Jorge, no Rio de Janeiro, inaugurada no
dia 5 de agosto, na qual apresenta 36 obras, a maioria pintada
na França (Seraphim, 2003, pág. 324).
Após 1920,
Eliseu Visconti não mais deixaria o Brasil. Prosseguiria aqui em
suas pesquisas, trabalhando incessantemente para criar um estilo
próprio. Segundo seu filho, Tobias d’Angelo Visconti, “é
nesta fase que se torna bem brasileiro, empenhando-se no estudo da
luminosa e vibrante atmosfera do Brasil.” (textos
críticos - A brasilidade de Visconti).
Em 1922 é agraciado
com a Medalha de Honra na Exposição Comemorativa do Centenário
da Independência. Antes, em 1921, apresenta três projetos de selos
para o concurso que se realizou no Rio de Janeiro, também em comemoração
ao Centenário da Independência. Volta a lecionar, mas em curso
particular que dirige à Rua das Laranjeiras, tendo como aluno
de destaque Manoel Santiago.
Não tendo sido
convidado, acompanhou com interesse os acontecimentos da Semana de
Arte Moderna de 22, embora não aceitasse manifestações onde a
falta de conhecimento técnico fosse flagrante. Pietro Maria Bardi,
em entrevista a “ISTO É” em dezembro de 1977, comentou sobre
a ausência de Eliseu Visconti na Semana de 22: “Não foi convidado. Esqueceram o único realmente moderno de sua época,
que era Visconti”. No Jornal da Tarde de 2 de dezembro de
1982 – Caderno Cultural, Jacob Klintowitz diria sobre o mesmo
tema: “E os principais artistas modernos não foram convidados a participar.
Naquela época, como agora, sobravam as questões pessoais, o
desconhecimento e a disputa de poder e projeção. O que serve
para explicar a ausência...ao menos como homenagem, do grande
pintor Eliseu Visconti, a quem devemos, em boa parte, a
modernidade de nossa pintura.” A injustiça seria
parcialmente reparada 50 anos depois, quando Willys de Castro
incluiu uma tela de Visconti no Cartaz
Comemorativo do Cinqüentenário da Semana de Arte Moderna.
Conclui Visconti
em 1923, com a colaboração de Oswaldo Teixeira, a decoração do
vestíbulo do Conselho Municipal, atual Câmara dos Vereadores
(Palácio Pedro Ernesto), na Cinelândia. Compõe-se essa decoração
de um tríptico de características impressionistas, intitulado
“Deveres da Cidade”,
medindo 15 m X 5 m. Na parte
central da obra, a figura feminina representa a cidade, e a
masculina, a legislação. Os painéis laterais fazem menção aos
trabalhos desenvolvidos por Oswaldo Cruz (saneamento) e por Pereira Passos (urbanização).
No ano seguinte
recebe a encomenda para executar o painel decorativo do plenário
da Câmara dos Deputados (hoje Assembléia Legislativa do Rio –
Palácio Tiradentes, na Praça XV de Novembro). A primeira esquisse,
representando a posse de Deodoro da Fonseca na Presidência da
República, foi recusada pela comissão constituída que, segundo
Frederico Barata, exigiu do artista outro estudo em que não figurassem
mulheres. Visconti apresentou novo trabalho representando a assinatura
da Primeira Constituição Republicana de 1891, sem mulheres
e de fatura mais comportada. Aprovada pela comissão, a decoração
foi executada e concluída em 1926. No grande painel, restaurado
em 2001, figuram em tamanho natural os retratos dos 63 constituintes.
Ainda em 1923,
Visconti é um dos grandes incentivadores do Salão da Primavera,
que teve a ousadia de exibir obras abstratas (Lucia Etienne Romeu
em “A Primavera de Eliseu Visconti” – Revista Arte Hoje –
outubro de 1977).
Em 1926, na
Galeria Jorge, mais importante galeria de artes do Rio de Janeiro
à época, situada à Rua do Rosário nº 131, realizou Visconti
nova exposição de arte decorativa, reapresentando os trabalhos
antigos e expondo agora os selos postais premiados em 1904, bem
como o ex-libris e o emblema da Biblioteca Nacional.
Participa com
Assis Chateaubriand, em 1927, dos primeiros esforços para criação
de um museu de arte em São Paulo, doando quatro telas para o
acervo. O MASP (Museu de Arte de São Paulo) seria criado somente
em 1947, tendo sua direção sido entregue a Pietro Maria Bardi,
admirador de Visconti.
É nesse mesmo
ano de 1927 que inicia sua fase de paisagens impressionistas de
Teresópolis, cheias de atmosfera luminosa e transparente, de
radiosa vibração tropical. Como notou Mário Pedrosa: “...
Sob a luz tropical ainda indomada de nossa pintura, Visconti é um
conquistador da atmosfera. E aquela ciência da luz e do colorido
que aprendeu em França vai servir-lhe agora para dominar o vapor
atmosférico, sua grande contribuição à nossa pintura”. (Visconti
diante das modernas gerações – Correio da Manhã – 1 de
janeiro de 1950).
Concordando com Mário
Pedrosa e indo além, João Paulo M. Fonseca diria: “Na
fase dita de Teresópolis, fase de maturidade, é que Visconti se
vai valer do aprendizado impressionista a fim de fixar a veemência
do sol brasileiro...É-nos lícito indagar, diante de várias
obras suas, se não realizam algo de tão moderno quanto as telas
de pintores de geração mais recente, como um Pancetti, um
Marcier, um Bonadei. A resposta a tal pergunta poderia situar
Visconti não propriamente como um preâmbulo à nossa pintura
moderna, mas como seu vero iniciador”. (Catálogo da Exposição
de Eliseu Visconti no Museu Nacional de Belas Artes – 1967). São
dessa fase, que se estenderia até sua morte, em 1944, as obras “Descanso
Em Meu Jardim”, “Minha Casa de Campo”, “Quaresmas”,
“Um Ninho”, “Raios de Sol”, “Roupa Estendida”, “Revoada
de Pombos”, dentre muitas outras.
Em 1931, Visconti
executa desenho para estilização das armas municipais do Rio de
Janeiro, a pedido do Prefeito Adolpho Bergamini. O Prefeito, no
entanto, desiste da intenção de substituir os emblemas antigos,
já por demais reproduzidos e cristalizados em prédios e repartições
públicas.
A reforma do
Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no início da década de 1930,
iria proporcionar a Eliseu Visconti um retorno às emoções da
mocidade. Como a reforma previa o alargamento da boca de cena, o
Engenheiro Roberto Doyle Maia convidou Visconti a aumentar o
primitivo friso sobre o proscênio. Demonstrando grande
vitalidade, preferiu o artista, aos 68 anos de idade, executar um
novo friso, que seria colocado sobre o original. Nesse trabalho,
executado entre 1934 e 1936, foi auxiliado por sua filha Yvonne
Visconti Cavalleiro, por seu genro Henrique Cavalleiro e por seus
discípulos Agenor César de Barros e Martinho de Haro.
Nesse mesmo período
da reforma do Teatro Municipal, Visconti lecionou no curso de
extensão universitária de artes decorativas, que funcionava junto
à Escola Politécnica do Rio de Janeiro, organizado pelo Professor
José Flexa Ribeiro. Adotaria em seus ensinamentos a orientação
de Eugène Grasset, da École Guérin, cujas normas guardava em seus
cadernos de apontamentos. Nas decorações, no entanto, Visconti
insistia com os alunos para que utilizassem motivos da flora brasileira.
(Flávio Motta – Contribuição do Estudo do Art Nouveau no Brasil
– 1957). Tem início assim, em 1934, com Eliseu Visconti,
o ensino de design no Brasil. Para Guilherme Cunha Lima, Visconti,
que já possuía idéias sobre artes aplicadas
à indústria, organiza o curso adotando um critério
que distinguia a parte geométrica da inspiração
naturalista e relacionando sempre o aprendizado com a prática.
Visconti encerraria essa atividade em 1936, ao completar 70 anos.
Mais tarde, em
1937, convidado por Lucílio de Albuquerque, então Diretor da Escola
Nacional de Belas Artes, Visconti integra a comissão examinadora
do concurso para professor catedrático de Arte Decorativa.
Em 1942, Visconti
doa para o governo do então Distrito Federal os estudos
originais realizados durante a confecção das decorações
do Theatro Municipal do Rio. Para abrigar as obras doadas por
Visconti, é criado pelo prefeito o Museu Evocativo
do Theatro Municipal.
Prosseguiria Eliseu
Visconti em sua busca incansável pelo novo e, com certeza, “se
mais tempo vivesse, mais além teria levado suas experiências.”
(Regina L. Laemmert, no Catálogo da exposição de Visconti no MNBA
em 1967). Mas, em julho de 1944, Visconti sofre um assalto em
seu atelier da Av. Mem de Sá. Foi encontrado desacordado, ferido
na cabeça e sem os seus pertences – relógio, documentos de identidade
e dinheiro. Quando pôde falar, Visconti afirmou ter sido procurado
por dois homens que lhe teriam oferecido frutas e com os quais
teria conversado algum tempo. Depois disso, não se recordava de
nada, presumindo-se que tenha sido atacado pelas costas. Durante
dois meses permaneceu Eliseu Visconti em agonia, encerrado em
uma câmara de respiração artificial.
Surpreendentemente,
ergueu-se novamente por cerca de três semanas, lúcido, cheio de
idéias e planos, inquieto e, com certeza, ávido por novas experiências,
repetindo a todo instante a seus familiares: “Nasci
de novo! Agora é que vou começar a pintar, vocês vão ver!”
Agia como se toda
a obra que produziu ainda não o tivesse satisfeito. Dirigiu-se
novamente ao seu atelier, subindo sozinho as escadas e lá,
segundo testemunho de Frederico Barata, que o acompanhou nesta última
viagem ao seu templo, “parecia
que se transmudara por efeito de um milagre. Só para aquele mundo
lhe valia realmente a vida.” A ressurreição no entanto
durou pouco. Após recaída, falece o artista em 15 de outubro de
1944, aos 78 anos de idade.
“Durante
os quase sessenta anos pelos quais se distendeu sua carreira,
foi Eliseu Visconti um inquieto, um pesquisador perene, sempre
à procura de novos caminhos para dar vazas à própria personalidade.
Seus críticos mais abalizados – Frederico Barata, Lygia Martins
Costa, Herman Lima, Reis Júnior, Mário Pedrosa – já lhe distribuíram
a produção artística por fases, nas quais repercutem como ecos
as influências mais diversas: naturalistas de princípios de carreira,
renascentistas do momento de Gioventu,
divisionistas (decorações do Teatro Municipal), realistas (Retrato de Gonzaga
Duque), impressionistas das paisagens de St. Hubert, enfim
neo-realistas dos últimos anos, das paisagens de Santa Teresa
e de Teresópolis, quem sabe o momento mais alto, porque mais pessoal
de sua atividade pictórica (Revoada
de Pombos).
Todas
essas fases sucessivas entremostram uma busca incessante por um
estilo, uma ânsia de renovação absolutamente inédita num meio
e numa época provincianamente acanhados. Sob tal aspecto, mais
que por uma tardia filiação aos postulados impressionistas e
neo-impressionistas já em decadência na Europa, é que nosso
artista se prende ao século XX, e pode inclusive ser reclamado
como um precursor do modernismo brasileiro. Mas Visconti é bem
mais do que isso: é uma das mais poderosas e completas organizações
pictóricas jamais desabrochadas no Brasil, autor de obra extensa
e valiosa, um clássico da pintura nacional, no sentido mais lato
e profundo do vocábulo”
Esse texto do crítico
de arte José Roberto Teixeira Leite, perfeito para encerrar a
biografia de Eliseu Visconti, levanta contudo uma questão por
vezes abordada por outros estudiosos: Teria sido tardia a filiação
de Eliseu Visconti aos postulados impressionistas? Uma análise
simplesmente cronológica diria que sim, pois convencionalmente
surgido em 1874, o impressionismo na França já cedia espaços ao
expressionismo, ao fauvismo e ao cubismo quando Visconti utiliza
aquela técnica na transição do século XIX
para o século XX.
No entanto, uma
regressão à época, quando o conservadorismo e a morosidade das
comunicações imprimiam um movimento lento à propagação da
evolução artística, mostrará que apenas na França o estilo
impressionista já estaria “em decadência”. E é o próprio
José Roberto Teixeira Leite quem volta ao tema, quando tem mais
espaço para desenvolvê-lo em Arte no Brasil – 1979 – 2 vols.
– Editora Abril:
“Mas,
com relação a outros países, a contribuição de Visconti, Lucílio
de Albuquerque e outros não foi tão defasada (quanto em relação
à França). Mais ou menos da mesma idade de Visconti era, por
exemplo, o italiano Plínio Nomellini, o alemão Max Liebermann, o
russo Valentin Serov, o canadense James Wilson Morrice, o mexicano
Joaquin Clausell e o argentino Martin Mallenarro, introdutores do
estilo em suas pátrias. Mais moços ainda do que Visconti foram o
belga Henri Evenepoel, o alemão Max Slevogt, os uruguaios Pedro
BlanesViales e Miguel Carlos Visctorica, o venezuelano Armando
Reverón e o argentino Fernando Fader, todos impressionistas”.
Assim, pintores
de destaque na Europa e na América foram contemporâneos de Visconti
na incorporação de recursos impressionistas às suas paletas. Mesmo
na França, a aceitação do impressionismo por parte do público
começa a ocorrer em 1880, a partir da última exposição dos impressionistas.
O governo francês só reconheceria oficialmente a nova pintura
em 1892, ao adquirir um quadro de Renoir. Visconti, já em 1895,
pinta “Primavera”,
tela em que se observam características impressionistas, traduzidas
pela composição de um fragmento de paisagem onde o artista trunca
as árvores de grande porte, dando destaque à relva, em que pontos
luminosos se destacam, acentuados pela
fragmentação das pinceladas, até chegar à sensação de uma
névoa nos últimos planos. (Sanchez, 1982 p. 45).
Mas com a tela
“Os
Patinhos”, 1897 seria realmente o ano do inteiro contato
de Visconti com a pintura impressionista. Sua paleta se ilumina.
Reflete luz e sombra no espelho d’água do lago. Os patinhos são
pura luz, fazendo um contraponto com manchas de cor na água. As
pinceladas são mais curtas e ritmadas. A pesquisa dos efeitos
da luz configura-se como um aspecto novo dentro da produção de
Visconti (Nunes, 2003, pág. 95).
E, ao aprendizado
em França da luz e do colorido impressionistas, Visconti
acrescentou, após seu retorno definitivo ao Brasil, sua “conquista
posterior, de mais luminosidade,
de mais transparência, de mais atmosfera, resultado de suas
pesquisas sobre o
equacionamento de seu estilo genial e de seu impressionismo à
nossa natureza tropical.” (Auler ,1967).
Sobre o tema do
impressionismo pessoal de Visconti, Maria José Sanchez expõe em
sua tese: “Visconti, o
mais significativo representante do movimento no Brasil, recebeu o
título de Mestre do Impressionismo. Anticonformista desde a
juventude, dedicou-se intensivamente ao aprendizado dos novos cânones
estéticos e terminou por subjugar-se a eles. Foi o seu espírito
rebelde, o desejo intenso de renovação que o levaram à busca da
nova técnica, que o absorveu por inteiro. Nos primeiros contatos
de Visconti com o impressionismo percebe-se que o artista tentou
assimilá-lo consoante os moldes do impressionismo europeu. Mas
quando regressou ao Brasil, sob o clima tropical, outra
luminosidade e outras cores exerceram influência sobre ele, para
criar um impressionismo próprio. É o que chamamos de
impressionismo brasileiro, de Impressionismo Viscontiniano.”
E
Flávio de Aquino conclui: “Visconti
é, para nós, o precursor da arte dos nossos dias, o nosso mais
legítimo representante de uma das mais importantes etapas da
pintura contemporânea: o impressionismo. Trouxe-o da França
ainda quente das discussões, vivo; transformou-o, ante o motivo
brasileiro, perante a cor e a atmosfera luminosa do nosso País”.
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AMIGOS INSEPARÁVEIS 1921

MINHA CASA EM COPACABANA - c.1920

COPACABANA - c.1920

AS MAÇÃS - 1920

RETRATO DE LOUISE

RECANTO DO MORRO DE STO ANTONIO
- c. 1920

MEU IRMÃO AFONSO - 1926

DESCANSO EM MEU JARDIM - 1938

MINHA CASA DE CAMPO-TERESÓPOLIS
- 1929

LADEIRA DOS TABAJARAS 1928

JARDIM DE TERESÓPOLIS
- c. 1930

MEU FILHO TOBIAS - 1930

MEU JARDIM - 1930

AUTO-RETRATO - 1934

RETRATOS DE FAMÍLIA-c.1935

GAROTOS DA LADEIRA 1930

NO MEU JARDIM - c.1940

QUARESMAS - 1942

UM NINHO-TERESÓPOLIS 1940

RAIOS DE SOL-TERESÓPOLIS
- 1935

ROUPA ESTENDIDA - 1944

REVOADA DE POMBOS - c.1926

AUTO-RETRATO - c.1940

AUTO-RETRATO EM TRES POSIÇÕES
- 1938
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