Oswaldo Teixeira - Prefácio do Catálogo da Exposição Retrospectiva de Eliseu Visconti - 1949

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O grande pintor francês Puvis de Chavannes tem numa de suas telas a representação de uma cena em que alguns beatos da pintura toscana estão trabalhando num convento e, a principal figura parece que vai e vem perdida num êxtase maravilhoso diante de seu painel.

Não sei porque sempre via Mestre Visconti lembrava-me do famoso decorador do “Pantheon”, do magnífico panagerista em cores e linhas da vida de Santa Genoveva e de sua tela famosa, porque, de fato, Visconti deu-me sempre a feliz impressão de um beneditino, enclausurado em si mesmo, coberto com burel de sonho interior. Mestre Visconti era um homem devotado à sua grande arte, vivendo apaixonadamente para sua gloriosa vida. Trabalhador infatigável, sempre descontente com o que fazia, não aprovando nunca o que havia realizado era, o que se podia dizer sem receio de criar e cometer paradoxo: o maior inimigo de si mesmo. Daí ter morrido sem conhecer a decadência, sem ter desaparecido em vida, sem que o melancólico crepúsculo das existências tristes, amarguradas tivesse amortalhado o seu espírito, o seu corpo.

Nunca o vi desanimado ele possuía como afirmou um poeta: “La lente majesté du port et de la taille”.

Homem simples, simples em tudo, sem rebuscamentos e sem ser cabotino, era sem dúvida um imaginativo, um sonhador, talvez o mais sutil colorista de nossa pintura. Não chamava atenção do público pelo disparate, pelo grotesco das atitudes e de sua maneira de pintar que era sempre admirável.

Simples no falar, modesto no vestir, não se preocupando com o superficial, não se parecendo em nada com o seu ilustre colega Eugène Deveria que no dizer de Theofile Gautier: “Avait lê gout du seizième siècle. II aimait lê satin, le damas, lês joyaux et se serais volontiers promené en robe de brocart d’or comme um magnifique de Titien ou de Bonifazio”.

Em vida foi um autentico triunfador. A sua bela cabeça em toda a sua existência maravilhosa foi coberta por louros sempre verdes. Nunca envelheceu, nunca conheceu o inverno do pensamento, viveu sempre em pleno verão e aureolado de primaveras; parece, porém, que a origem desse vivo interesse pela vida e pela arte, se encontra no dualismo de seu espírito fortalecido pela origem de seu atavismo racial.

Se para Taine o artista era fruto de seu meio, Visconti não foi, em nada, produto de seu ambiente, mas sim de seu atavismo racial.

Todos nós sabemos que o egrégio mestre nasceu em Salerno, na Itália, e se analisarmos atentamente toda sua obra podemos chegar a conclusão de que foi ele acima de tudo um latino, talvez mais acertadamente um neo-latino, porque se em suas veias corria o sangue generoso do Latin, como vinho caldeado de civilização remotas e se estava desde a infância habituado aos trópicos, ao calor da natureza brasileira, é bem certo ainda que se Salerno recebera a atmosfera helênica, porque sua cidade natal respira de perto o ar grego e sua arte possui ainda o espírito bizantino.

Fácil se torna, pois, num rápido exame, identificar seu atavismo racial, mesmo vivendo toda a sua vida sob a benção do Cruzeiro do Sul. Se Mestre Visconti não tivesse sua origem na pátria milagrosa de Ghirlandajo, não poderia, por certo, pintar e sentir de maneira tão comovente o Apolo do Cristinianismo: S. Sebastião que talvez seja obra prima. Aí se encontra, evidentemente, o latino. E o heleno? O artista grego não está, evidentemente, na inspiração das “Oreadas”?

É bem certo que há nesse quadro a graça boticeliana, mas longe está na técnica do mestre florentino, que pincelava igualmente e com a mesma emoção centauros e madonas. Não faz lembrar as “Oreadas” um baixo-relevo em cores que tivesse descido da “Acrópole”? Não é um poema primaveril, um cântico vibrante e gracioso à mocidade que dança alegremente, entre asas e árvores, num sarabanda grácil movimentada, e onde se sente o belo verso de Marcel Proust: “Poussière de baisers autour de bouches lasses...”?

Estou certo que se Renan tivesse visto as “Oreadas”, teria dito novamente “Se a Grécia tudo criou, a Itália tudo fez reviver...”

Para se estudar a vida e a obra de um artista necessário se torna o exame de todos os seus contornos, de todos os seus ângulos, mesmo os mais obscuros ou contraditórios. Não tenho receio em afirmar que, principalmente, nas primeiras etapas da técnica e sobretudo da inspiração, da gênese da obra viscontiana há, com abundante evidência, o influxo racial de forte poder emotivo. Mestre Visconti amava sinceramente o Brasil acima de todas as Pátrias, porém se compararmos a sua epiderme pictórica, a “pulpe” de sua pintura, podemos verificar que ela sofre influências estranhas, principalmente da Itália. Da Espanha, mesmo copiando Velasquez não recebeu marca profunda, indelével. O gênio criador de “As meninas” ano influenciou fortemente o ilustre autor de retratos como os de Gonzaga Duque ou de Nicolina Vaz de Assis, apesar do realismo magnífico desses dois soberbos trabalhos.

Já a França de Henri Martin e de outros mestres, inclusive Aman-Jean, tem influência e muito expressiva na formação artística do mestre. Se dividirmos em fases a obra desse grande pintor, podemos encontrá-la em poucos quadros que são modelos muito ricos e que determinam etapas diferenciais: “Recompensa de São Sebastião”; observação forte, latente, dos italianos, notadamente dos primitivos e acentuada inspiração na cor do quadro de Mantegna que está no “Louvre” e que tem por motivo, também o Santo Mártir; “As Oreadas” ainda, influência itálica, com sabor heleno, com inspiração na mitologia. Nos retratos da primeira fase e em alguns nus de estupendo modelado, o seu realismo é patente.

Nas decorações a influência francesa do pontilhismo e, finalmente, a fase dos seus últimos envios ao “Salão”, na qual parece, salvo engano, ter permanecido; refiro-me ao da superposição de tons. Já Segantini dividia as tonalidades e realizava com sua admirável técnica um minúsculo mosaico em cores as mais infinitas, dando-nos, por vezes, a impressão de um maravilhoso vitral em miniatura, por meio de pequenas pinceladas superpostas e dir-se-ia que a sua pintura vinha de dentro para fora, devido a sua técnica de colocar as cores uma sobre as outras, em tonalidades de pastel, em meias tintas deliciosas, encantadoras, sem procurar cobrir, inteiramente, o que já havia executado anteriormente. O efeito dessa maneira é verdadeiramente maravilhoso e só um autêntico mestre realiza. Não sei de todas as etapas, de todas as fases do grande pintor, qual a melhor; todas foram boas, direi com justo acerto: magníficas.

Mestre Visconti foi um pesquisador, um analista meticuloso e consciente, um anatomista cauteloso, sutil e cheio de ciência. Se em verdade, não inventou, não criou ou descobriu novas fórmulas técnica de pintar, em verdade também não deformou, não cultuou o grotesco e, nem tão pouco confundiu o belo com o bonito.

Visconti manteve-se fiel à sua lógica que era avançar, progredir, porém dentro do equilíbrio e essa harmonia vem de sua raça, da origem de seu natalício na Itália, que recebeu o influxo civilizador da Grécia. Aquela longínqua Salerno cantou sempre, misteriosamente, na alma lírica do pintor que, talvez sem sentir, nem mesmo adivinhar, quando pintou as “Oreadas” estava realizando a transfiguração de duas pátrias numa tela: A Grécia e a Itália!

Falando de Visconti não poderia, por certo, esquecer a sua notável decoração do “Municipal” em que no “Foyer” ele realiza a sua obra prima no gênero decorativo e em “pontilhismo”. Aí evidencia-se o seu belo espírito de homem de seu tempo, guardando respeito absoluto à forma e à cor.

Num painel, Dante aparece com suas visões, talvez em busca daquela que no dizer do poeta: “imparadiza la mia mente” e que andava “tutta vestita de color de fiama viva”.

Noutro painel fronteiro, de efeito pictórico esplendido, então algumas sereias, aquelas mesmo que tentaram o arguto Ulysses e que o velho e eterno Homero, no Canto XII, diz: “vem para perto, famoso Odisseus, dos Acaios orgulho, trás para cá teu navio, que possas o cantor escutar”. Parece que o espírito altamente poético de Visconti baloiçava entre dois ramos e que suas raízes, um estava em Atenas e outra em Florença.

O nobre artista que o Brasil perdeu sabia como poucos comover com sua arte que alcançou grandes culminâncias. Era, sem dúvida, privilegiado, dotado de grande requinte espiritual, muito pessoal e cheio de recato. Era assim em família, com seus colegas, e com notável arte de pintar e ver a vida. Não era em absoluto um triste, sabia sorrir, e por vezes, de maneira anatoliana e por que não dizer: quase sempre com razão.

O seu otimismo, não se poderia dizer que era completo, sempre havia um pouco de ceticismo, porém com a finalidade de atingir a perfeição.

Aqueles que pensam que Visconti tudo aplaudia com o fim exclusivo de incentivar a mocidade, enganam-se, porque o Mestre sabia discernir, deparar o joio do trigo.

Mestre Visconti foi em toda sua existência um lutador, um infatigável trabalhador, um homem honesto, sincero consigo e com os demais. Sabia criticar, por vezes com aspereza, mas nele havia o sentido humano de construir e melhorar. Era um inimigo declarado do triunfo fácil e do cabotinismo, por isso legou-nos uma obra admirável, uma altiva e nobre lição de beleza e de caráter. Com a sua Arte e juventude do Brasil só terá a lucrar, porque ela só representa a verdade, de que ele era um apóstolo cheio de fé e de severidade. O Brasil, que ele tanto venerou, respeitou e serviu, deve tê-lo como um de seus autênticos filhos, porque Visconti não desejava ser outra coisa senão brasileiro. Que importa que tivesse nascido na Itália, se o seu coração e seu espírito nos pertence legitimamente, porque ele assim o quis e devotamente se entregou ao nosso país, num gigantesco labor de mais de meio século!

Louco, pois, a obra e a vida gloriosa de Mestre Visconti que se entregou de corpo e alma à arte brasileira que não deve com tão grande exemplo decair, para que possa assim atingir mais alto, ou permanecer com segurança naquilo que os mestres nos doaram carinhosamente, como patrimônio legítimo de beleza.

Para que Mestre Visconti tanto se sacrificou, tanto fez vibrar o seu coração de artista? De certo não foi nem será uma inutilidade o seu incomparável esforço. Penso, que foi, por certo, para elevar a nossa arte, a arte brasileira que ele tanto serviu e, principalmente, para a grandeza da terra, da terra prodigiosa que ele tanto amou: o Brasil.