Mario Barata - Visconti é uma Lição - Catálogo da Exposição Comemorativa do Nascimento de Eliseu Visconti no MNBA - 1967

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Conheci pessoalmente Eliseo Visconti, com o seu ar de príncipe, elevada estatura e cabeleira branca, tudo a impor respeito aos que então o viam. E fui dos que, num triste dia de outubro de 1944 acompanharam o seu corpo, a pé, da Ladeira dos Tabajaras ao cemitério da rua Real Grandeza, entre muitos artistas e escritores que naquela época constituíam parte remanescente de um sistema de sensibilidade da vida intelectual brasileira, já perturbados pelas inúmeras mutações e substituições impostas pela nova realidade.

O grande pintor era dos maiores amigos de meu tio Frederico Barata, desde os anos 20. Participei assim, de longe, do final dessa trajetória rara, na arte de nosso país. Carreira tranqüila, malgrado Frederico haver testemunhado sôbre a inquietação e descontentamento artístico em que vivera Eliseo.

A obra de Visconti, eu só conheci a pouco e pouco, na medida em que minha própria sensibilidade se aguçava. Situada numa faixa transformadora, entre dois séculos e inserida em crise geral e histórica da visão artística, Visconti era suficientemente dotado de qualidades artesanais e valôres óticos para criar uma pintura apta a ficar como obra de requintado gôsto. Já Frederico Barata referia-se a musicalidade de sua paisagem que empregava “uma técnica de pinceladas visíveis e efeitos de profundidade atmosférica” ... “tal a sua capacidade poética e emocional, para reforçar a posição destacadíssima a que tem direito cmo boa pintura” (pág. 101 do livro sôbre Visconti). Essa “musicalidade” é uma sensação de êxtase, facultada através do ôlho – como no ouvido em outra arte – pela a passagem para o nirvana da contemplação pura. Isso pode ocorrer em face de muitas das paisagens de Visconti, pelo seu tonalismo delicado e harmoniosamente resolvido.

Artista em grande parte europeu – e disso acusado algumas vêzes – passou cêrca de 20 anos na França. Mas os longos períodos brasileiros também contribuíram para forjar a sua visualidade. A sua plasticidade inicial, a revisão que fêz do linearismo Botticelliano, tão ao sabor da transição dos dois séculos, o seu “art Nouveau” japonizante de aluno de Grasset em curso de arte decorativa, o pontilhismo, seu impressionismo de diluições atmosféricas, deram-lhe, em fases diversas, um instrumental perceptivo de que sua sensibilidade se serviu com largueza e precisão para a criação de seu mundo imagético. Vivendo 78 anos e trabalhando até o fim, sua obra é um grande panorama de figuras, paisagens, situações íntimas, vivencias felizes, arabescos de formas, sugestões tonais, que significam, queiram ou não, uma intimidade revelada e o todo de uma época. As encomendas de assuntos históricos foram resolvidos com dignidade. Sem lhe prejudicar o conceito.

Hoje sabemos que Visconti foi o ultimo de nossos artistas a flutuar legitimamente nas estruturas de percepção do mundo em mudança, mas ainda não completamente transformado. Dessa maneira ágil simultaneamente com a sua suficiente capacidade de renovação e a sua necessidade individual de preservação de certos valôres sensíveis, que a época estava fatalmente mudando e anulando, ao nascer de nova arte publica decisiva, isto é, dotada de meios operatórios eficazes para a solução do processo cultural em grande mutação, visto no seu conjunto.

Visconti foi o mais importante artista do primeiro terço do século no país, não só porque sabia pintar, mas porque pintava, apesar de tudo uma coisa nova. Não se tratava, no caso dêle, de conservar resíduos do neo-classicismo ou de academismo alegórico. Sempre vibrou uníssono com problemas de seu tempo, malgrado fôsse geracionalmente tardio – inclusive porque formado no Brasil e certamente pelo temperamento – para ter sido artista de vanguarda. Assim não se intelectualizou nem se radicalizou. Mas no conceito de intimidade que infundia na sua noção de arte, foi vivo e se transformou, criou um mundo delicioso de côr tênue, do qual ainda há dias vi bela obra: a paisagem da coleção Eurico Alves, no Rio de Janeiro – que a adquiriu no atelier do artista – para citar um das tantas que fêz.

Visconti era poeta. Poeta nessa imersão do sensível que êle consegue. São exemplos disso o jardim de sua casa em Teresópolis, com a cabeça de Yvonne surreal, na vegetação (Paisagem da coleção Henrique Cavaleiro. ca. 1935). Os brancos do rosto de Louise, com doçura e delicadeza inexcedíveis, fornecem ternura espiritual ao retrato da mesma coleção (ca. 1940).

Como o ôlho desligado da problemática cultural pode oferecer eco para as obras de arte – pela sensibilidade – as estruturas adaptativas e participantes da imagem a fazer-se na cultura em se fazendo, que intervem na elaboração dos padrões visuais de cada época, ajudam a dar vida e alma, inteligência e junção à peça criada pelo artista.

Visconti, é um exemplo dessa dupla virtualidade da pintura, as vésperas de grande mutação de signos plásticos, que caracteriza a nossa época, como outra mutação caracterizou, noutro contexto, o século XV.

O Museu Nacional de Belas Artes faz bem comemorar o centenário de nascimento de Eliseo Visconti, difundindo-lhe a obra de mestre em mostras como esta. Arte é para ser vista. E Visconti é uma lição.