Henrique Campos Cavalleiro - Eliseu Visconti - Estudo a Obra do Mestre e Cito suas Principais Frases - Agosto de 1975

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De modo geral há que distinguir na obra de Eliseu Visconti três fases distintas: aquela em que se observa a influência dos artistas da Renascença, e de modo marcante, a de Botticelli — a que resulta da familiaridade com os retratos italianos e espanhõis dos séculos XVI e XVII — e, finalmente, a fase impressionista com a sua conseqüente evolução: divisionismo e pontilhismo.

Da fase Renascentista há que destacar a “Dança das Oréadas”, tela magistral, premiada com a medalha de prata na Exposição Universal de Paris de 1900; “Juventude”, a obra prima pictórica de intensa e expressiva espiritualidade. À ela poder-se-ia aplicar a célebre frase de Da Vinci – “pintura é coisa mental”. Considero-a, entre todas, a mais representativa da fase Renascentista. Ainda com a inflluência Renscentista citarei “A Providência Divina Guiando Pedro Álvares Cabral” — atualmente faz parte do Museu Ipiranga de S. Paulo; e, finalmente, “Recompensa de S. Sebastião”, premiada com medalha de ouro na Exposição de S. Luiz – Estados Unidos – em 1909 que faz parte do patrimônio do Museu Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro.

Como exemplos da influência dos retratistas italianos e espanhóis dos séculos XVI e XVII, há que assinalar, entre outros, os retratos da escultora Nicolina Vaz de Assis e do crítico de arte Gonzaga Duque. No primeiro, de fato, a disposição da figura na tela, ou seja a sua composição, bem como o colorido, muito se assemelha ao retrato de “Balthazar de Castiglione”, de Rafael, exposto no Louvre; o segundo, apresenta reminiscências técnicas de Velasquez.

Visconti, como é notório, realizou inúmeras cópias de quadros de Velasquez, inclusive a do célebre quadro “Rendição de Breada”, como envio correspondente à sua condição de aluno-pensionista da Escola de Belas Artes. Essa cópia de execução magistral é verdadeiramente notável. Dir-se-ia que o mestre quando nela trabalhava recebia o espirito de Velasquez, consequentemente, é natural que tivesse recebido também essas influências que eu diria mediúnicas.

No seu admirável estudo sobre a obra e a personalidade de Visconti, publicado no “Correio Brasiliense”, diz o desembargador Hugo Auler: “Visconti criou o seu impressionismo, sua técnica e estilos próprios para expressar suas belas criações pictóricas”. Certo, certíssimo. Porque na verdade o mestre não se limitou a transpor para a tela, literalmente, a fórmula impressionista, se não, a condicionar ou adaptar essa fórmula ao seu temperamento sensível de artista, dando à ela uma característica própria, individual. Assim fizeram também os grandes artista como Besnard, Segantini, o belga Rysselberghe e tantos outros.

Baseado na técnica impressionista — compreendido ai o pontilhismo e o divisionismo — há que destacar inúmeros trabalhos, dentre os quais avulta a magistral decoração do Teatro Municipal do Rio, a qual abrange o “foyer” o “plafond” e a rotunda — exceção do Pano de Boca em que o mestre empregou técnica diferente. Essa obra verdadeiramente genial, única no seu gênero na América Latina, representa o resultado das experiências que o mestre vinha realizando, há muito tempo, para empreender essa concepção de arte, baseada no pontilhismo e no divisionismo.

A partir de 1910, depois de realizada essa grande obra, vemos Visconti executando várias telas de cavalete, entre as quais “Maternidade”, trabalho marcante de sua fase pré-impressionista, pertencente à Pinacoteca do Estado de S. Paulo, e vários retratos, paisagens e estudos, hoje, dispersos em coleções particulares; sem esquecer também a série de paisagens executadas em Teresópolis, onde estudou as vibrações da luz e da atmosfera.

Embora essa nova técnica e suas modalidades (nova para nós) tenha sido matéria já superada na Europa, no seu tempo, todavia não invalida a influência marcante que Visconti exerceu no meio artístico brasileiro, trazendo essa nova concepção de arte, pois, a bem dizer, nada tínhamos a não ser processos acadêmicos.

Rompendo com esses processos, Visconti preparava o grande advento da arte moderna no Brasil, da qual foi de fato o precursor.

No catálogo da primeira exposição realizada no Museu de Belas Artes, após sua morte, encontrei essa passagem apócrifa, que passo a transcrever: “ A obra e a vida de Eliseu d’ Angelo Visconti constituem para a arte brasileira um fonte perene de ensinamentos onde os artistas encontrarão sempre os mais belos exemplos de honestidade profissional aliados a um dos mais brilhantes temperamentos de artista de que se orgulha nosso País”.