Frederico Morais - Visconti - Ternura e Otimismo - O Globo - 03/03/1976

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Quem quiser descansar a vista dos excessos cromáticos do carnaval e viver alguns momentos de tranqüila emoção deve visitar o Museu Nacional de Belas Artes e ali contemplar a obra de Eliseu Visconti, nascido em Salerno, Itália, 1866, e falecido no Rio, em 1944. Abrindo a galeria de arte brasileira, na sala nobre, estão expostas cerca de 20 telas do artista, cobrindo cinco das seis fases em que geralmente é dividida sua obra, e três vasos, datados de 1902.

Na sala contígua, à direita, os trabalhos de seus alunos principais ou de artistas que sofreram sua influencia, como Henrique Cavalheiro, Marques Jr. e Georgina Albuquerque.

TERNURA – Para o crítico Sérgio Milliet, “Visconti traça o caminho entre a pintura acadêmica e a pintura atual, no Brasil”, sobretudo graças “à sua discreta compreensão do impressionismo”. Na célebre disputa entre positivistas e os modernos, Visconti ficou com estes, tendo sido um dos fundadores do Ateliê Livre (Frederico Barata no livro sobre artistas, e Flavio Motta no excelente ensaio incluindo na parte introdutora do dicionário das artes plásticas do Brasil, de Roberto Pontual, estudam as várias implicações dessa luta no posterior desenvolvimento de nossa arte e no ensino das artes do Brasil). Apesar disso, como também do seu pioneirismo no campo da programação visual (selos, ex-libris etc.) e do desenho industrial (vasos, luminárias etc) no Brasil, conseqüência, sem duvida de seus contatos com Grasset, artista art-nouveau, Visconti não se interessou pelos movimentos modernos do século 20.

Em sua primeira viagem de estudos à Europa é atraído de inicio pelo pré-rafaelismo de Rossetti, com seu misto de sensualismo e religiosidade, bem como por Botticelli. Exemplos dessa atração inicial são as telas “Recompensa de São Sebastião” e “Gioventu”. A figura humana aparece na obra de Visconti, sobretudo nesta fase inicial, como um corpo frágil e casto, tornando-se por vez etéreo. Mesmo nos nus, Visconti tende a privilegiar o rosto, que é visto de frente, a malícia tocando-o de leve. Depois os personagens aparecerão quase sempre de lado, como que caminhando, captado em um momento expressivo. Para Reis Jr., a pintura de Eliseu Visconti é nítida sem pedantismo, forte sem violência, com o que parece concordar Flavio Motta, que vê no seu empenho em encontrar mediações entre situações extremas a resposta à busca de ternura que percorre toda sua obra, desde uma obra-prima como Gioventu às telas em que, com freqüência, sua esposa e filhos aparecem como modelos. E não raro, diz ainda Flavio, na paginação desses “retratos” as cabeças surgem em um mundo nebuloso, rebelde às construções rígidas“. Equilibrando sensações da mesma maneira como equilibrará em sua obra paisagem e figura humana (diminuindo assim as tensões), Visconti sugere um sensualismo discreto, que evita o drama, mesmo quando o tema o sugere. Sensualismo que, na verdade, tem origem na própria matéria pictórica.

PRÉ-IMPRESSIONISMO – A fase dita pré-impressionista de Visconti é a que inclui algumas de suas melhores obras, justamente as que guardamos em nossas memórias. Como “Maternidade”, realizada em 1906, em Paris, e que está na Pinacoteca de São Paulo. Nessa obra, em que “a delicadeza de inspiração se alia à execução”, destacam-se a matéria requintadíssima em suas transparências e a conhecida habilidade dos artistas em manipular os brancos, que se entrosam habilmente com verdes e azuis. Desse mesmo período é o belíssimo retrato de Nicolina Vaz de Assis, algo triste e nostálgico, enquanto o retrato do crítico Gonzaga Duque, de 1912, domina a fase subseqüente. A partir daí, a pintura de Visconti sofre modificações, o artista volta-se para o exterior movimentando a composição, clareando as cores, banhando tudo de luz. Do quinto período (1920-30) e do último, o de Teresópolis (30-44) algumas obras se impõem, “Cura ao Sol”, seu auto-retrato em três posições, acrescida de uma quarta figura, de mulher, que aparece ao fundo, e o seu auto-retrato ao ar livre de 1943. Conclusão final de Flavio Motta sobre a obra de Visconti: “Em certo sentido, foi um codificador das sensações, como elas seriam mais tarde procuradas pela classe média beneficiária da revolução de 1930 e do novo surto desenvolvimentista. Diríamos que Visconti conseguiu prefigurar, na dimensão íntima de sua pintura, esse mundo de organizações sensoriais que acabaram por eclodir com o otimismo que presidiu a edificação de Brasília”.