Pano De Boca

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No início de 1906, Eliseu Visconti vem ao Brasil já trazendo a esquisse (esboço) do Pano de Boca do Teatro Municipal para submetê-la à aprovação do Prefeito Pereira Passos e do Engº Francisco de Oliveira Passos. A esquisse foi exposta na Casa Vieitas, no Rio de Janeiro. Após aprovada e assinado o contrato com a Comissão Construtora do Theatro, parte Visconti para Paris em 02 de maio de 1906, onde aluga o atelier que havia pertencido a Puvis de Chavannes, no Boulevard du Chateau nº 38.

No Brasil não havia atelier nas dimensões adequadas à empreitada que Visconti iniciava. O atelier alugado em Paris, com 4 metros de pé direito, seria ainda pequeno, pois o Pano de Boca, com 12 metros de altura por 13 metros de largura, teve que ser dividido em três seções, pintadas separadamente.

O tema para o Pano de Boca, escolhido pela Prefeitura, tem como título “A Influência das Artes sobre a Civilização”. Visconti desenvolveu o tema em termos alegóricos e executou uma obra pictórica de dimensões incomparáveis, sendo um dos mais monumentais trabalhos do gênero. Segundo Pedro Xexéo, “a composição e as figuras refletem a influência formal das concepções iconográficas da Belle Epoque, acrescida do que poderíamos chamar de estilo acadêmico-didático, comum nesse período.” (Theatro Municipal – 90 anos – 1999).

Mário Barata, no catálogo da exposição “Eliseu Visconti e a Arte Decorativa”, define assim o Pano de Boca: “É por excelência uma alegoria e ademais o tema só poderia, na época, ser encarado e resolvido em termos alegóricos. A solução se situa na fase em que o pintor utilizava o corpo feminino como vocabulário e código de alegorias.”

É o próprio Eliseu Visconti quem descreve o Pano de Boca:

“Quando me foi dado o tema para confecção do pano de boca, só tive em vista me servir de elementos da própria História, os fatos.

A política, doutrinas, ou quaisquer feitos para pôr em evidência este ou aquele vulto, foram postos de lado para obedecer a uma única tendência, a uma só religião: a da arte e a do dever.

Devo igualmente cientificar o público que a comissão construtora do Teatro Municipal me deixou inteiramente livre no que diz respeito ao desenvolvimento das decorações do Teatro e com especialidade na confecção do pano de boca, que passo a descrever:

A obra que o público tem debaixo dos olhos se compõe exclusivamente dos cartões definitivos e das esquisses para as decorações da sala de espetáculos do Teatro Municipal.

As opiniões emitidas, até hoje sobre o meu trabalho, foram inspiradas em uma gravura publicada, gentilmente, em dois jornais que não eram especialistas neste gênero de impressões; e assim, creio, não se fundam em observações seguras para um completo julgamento.

Tomando por cenário os Campos Elíseos, já pela sua vastidão, já pela justeza de sua significação, porque recordam a Grécia, que foi o berço da civilização ocidental, fí-los limitados por uma balaustrada de mármore com estátuas antigas. Era um limite indicado pela interpretação do assunto, em que se encerravam duas belezas e duas forças, a da natureza, representada pela paisagem, e a da Arte, na linha geométrica da balaustrada e nos admiráveis produtos da escultura helênica.

No centro dos Campos Elíseos, e fazendo o fundo da tela, segue-se um arco do triunfo, consagração usada desde remotos tempos aos grandes feitos humanos em épocas de glórias, e sob este arco um gênio alado, representando a Arte, domina o desfilar das celebridades que concorrem para o esplendor da sua soberania, e a qual preside a poesia, como manifestação artística instintiva.

A fim de estabelecer coesão das idades históricas no brilhante desfile dos grandes artistas, o pintor dividiu em seis etapas a sua composição.

Ao lado do Arco do Triunfo vêm-se Minerva e uma loba, indicando as grandes cidades da civilização ocidental – Roma e Atenas, tendo à direita as figuras de Orfeu e Homero, que precedem a um novo período, caracterizado pela estátua de Santo Ambrósio, o criador da música sacra.

Gioto e Dante seguem-no e abrem a Renascença, com a apoteose de Palestrina, a que se agrupam Mantegna, os Belini, Leonardo da Vinci, Ticiano, Rafael e Miguel Ângelo.

A esta segue-se a quarta etapa, com os homens célebres: Camões, o maior épico de seu tempo e grande poeta da língua portuguesa, Corneile e Racine, representando a poesia e o teatro francês, Shakespeare, o teatro inglês, Mozart, a Música; Poussin, Rubens, Van Dick, Velazquez , Rembrandt, Reinolds e Gainsborough, a Pintura, tendo por culminância Beethoven, o gênio da arte musical.

Logo após segue-lhe a quinta etapa, representada por Victor Hugo, Berlioz, Wagner, Delacroix, Ingres, Meyerbeer, Menzel, Schopenhauer, Rosini e Verdi. É o período romântico.

A sexta etapa o artista destinou-a às glórias brasileiras, a José Bonifácio, o organizador da independência do Brasil e consagrado poeta; a João Caetano, o maior artista dramático do passado; Francisco Manoel, o inspirado autor do Hino Nacional; aos seus poetas, dramaturgos, atores, tais como Gonçalves Dias, Castro Alves, Casemiro de Abreu, Peregrino de Menezes, Corrêa Vasques e Mestre Valentim, que resume a arte da escultura no passado.

Mais perto do nosso tempo, e, pois, representando um período moderno, acham-se D. Pedro II, não o Imperador, mas o homem culto e despido de ostentação, que protegeu institutos literários, que animou o talento de seus compatrícios e concorreu para a educação dos artistas e que, por destino do nascimento, governou um povo fazendo timbre de sua índole democrática; Pedro Américo e Vítor Meireles, as primeiras constelações de nossa pintura cultivada; José de Alencar, representando o drama e o romance; Furtado Coelho, a arte dramática moderna; Almeida Júnior, a pintura moderna, e Francisco de Oliveira Passos (o único vivo aí representado) como arquiteto do Teatro Municipal, o mais suntuoso monumento público levantado na era do ressurgimento da cidade. Essa reunião de celebridades aclama e leva em triunfo a Carlos Gomes, o maior músico que o Brasil possui dentro de nossa época de formação nacional.

Acima da multidão popular, caracterizada em todas as classes, até as mais humildes, que acompanha, ao som da banda marcial, o carro em triunfo, pairam a ciência e a verdade, sem outros adornos mais do que a beleza de suas formas, que são a expressão de sua pureza.

E enquanto este desfile triunfal passa por diante da Arte, enquanto soam trompas de glórias e sobe ao ar, com as aclamações, a harmonia das músicas, a Dança, que é a arte primitiva da figuração dos sons, desenvolve as suas cortes através dos tempos, desde a Grécia até hoje,desde os compassos simples e simbólicos até a rapidez elétrica dos bailados.

À esquerda do Arco do Triunfo acha-se simbolizado o mundo espiritual e subjetivo, o papado, a religião e a música”.

A descrição de Eliseu Visconti para o Pano de Boca pode ser acompanhada pelo Esquema representativo das mais de 200 figuras que compõem a pintura, através do qual podem ser identificados os personagens descritos.

Concluído, o Pano de Boca foi exposto em Paris, entre 20 e 28 de julho de 1907, no atelier do artista, tendo o Prefeito Pereira Passos e o ex-Presidente Rodrigues Alves comparecido à exposição.

Visconti recebe com satisfação os elogios da crítica francesa ao Pano de Boca mas, antes de embarcar para o Brasil com seus trabalhos, já sabe que sua obra será objeto de pesadas críticas publicadas na imprensa do Rio de Janeiro, oriundas de alguns brasileiros residentes em Paris que haviam comparecido à exposição.

O Jornal do Commércio, em 06 de agosto de 1907, publica matéria em que o Engº Oliveira Passos faz a defesa do trabalho de Eliseu Visconti, seguida da descrição do Pano de Boca pelo autor. E publica também as críticas encaminhadas pelos membros da colônia brasileira em Paris:

“Membros da colônia brasileira dirigiram-se ao Senhor Conselheiro Rui Barbosa, pedindo-lhe que interviesse junto ao Sr. Presidente da República, para que fosse evitado o acabamento do Pano de Boca do Theatro Municipal, em que o pintor Visconti representava o Brasil artístico na pessoa de Sua Majestade, finado Sr. D. Pedro II, boquiaberto ante o Maestro Carlos Gomes e rodeado de pessoas na mesma atitude, entre as quais uma preta mina, com tabuleiro cheio de bananas, além de outros atributos ridículos ou deprimentes.”

Visconti, de Paris, assim responderia:

“Paris, 09 de agosto de 1907

No dia 07 do corrente recebi um telegrama nos seguintes termos: Causa má impressão inclusão Imperador e mais pessoas populares Pano Theatro.

A minha exposição encerrou-se aqui em Paris no dia 28 do passado. Ela foi visitada por centenares de brasileiros de todos os partidos e não me consta até essa data a menor antipatia pela figura do ex-imperador do Brasil, pelo contrário! A figura de D. Pedro II não podia passar desapercebida no cortejo histórico-artístico que me propus de desenvolver. Que tenho eu com as intrigas políticas? A minha bandeira é a da arte e só ela respeito!

Em outra carta, dirigida ao Engº Oliveira Passos, Visconti acrescentaria:

“Eu, como artista, cumpri o meu dever e tenho o espírito tranqüilo e como a pintura do Pano de Boca presta-se a todas as vicissitudes, será fácil suprimir este ou aquele elemento de discórdia... Quanto à crítica propriamente dita não ligo a menor importância; as opiniões são livres, recolho o que me interessa e o vento se encarrega do resto!...”.

Visconti tentava convencer Oliveira Passos a não retirar da tela os personagens criticados, argumentando que os trabalhos já estavam embalados e pedia que se esperasse sua chegada à Capital. Sua artimanha deu certo, pois o Pano de Boca jamais seria alterado.

Vale aqui a transcrição do texto da dissertação de Valéria Ochoa Oliveira:

Quanto às críticas, se não atacavam a capacidade de Visconti como artista, questionavam o conteúdo das obras e, por conseguinte, revelavam os ideais da nova república, que não desejava expor seu passado escravista – na figura dos negros – ou o passado monárquico recente – na figura de D. Pedro II. Visconti, ao representá-los no Pano de Boca, colocando lado a lado os populares negros e figuras ilustres, comprovou não estar alinhado entre aqueles que desejavam ingressar na modernidade ignorando as inevitáveis contradições. A modernidade foi marcada por um “caráter profundamente excludente. Existia uma descrença na capacidade da população negra e mestiça, ... os ideais civilizatórios passaram a ser claramente endereçados às elites. Essas, identificadas com a cultura européia, tentaram negar as origens mestiças da nacionalidade” (Mônica Pimenta Velloso - O Modernismo e a Questão Nacional em O Brasil Republicano de Lucilia de Almeida Neves Delgado e Jorge Ferreira – Civilização Brasileira - 2003).

Também Arthur Azevedo foi severo crítico do Pano de Boca, embora de outra forma, pois se também preservava Visconti como artista, contestava a concepção da obra e não os personagens ali colocados. José Mariano Filho foi seu adversário, defendendo com veemência a obra realizada por Visconti.

Em 11 de outubro de 1907, Eliseu Visconti embarca no navio Nille trazendo as decorações do Theatro Municipal em três caixotes, sendo que o maior deles tinha 14 metros de comprimento. Chegando ao Rio em 28 de outubro de 1907, os trabalhos de montagem das obras no Teatro foram imediatamente iniciados, tendo o Pano de Boca sido colocado em julho de 1908, um ano antes da inauguração do Teatro Municipal.

“Encerrava-se assim, com o monumental Pano de Boca de Visconti, o século aberto pela grande pintura histórica de Debret” (Luciano Migliaccio – Curador da exposição Arte no Século XIX – Mostra do Descobrimento – 2000 – São Paulo.

O pano de Boca do Teatro Municipal foi objeto de completo trabalho de restauração concluído em 1999, como parte das comemorações dos 90 anos do Theatro. Do projeto de restauro participaram o Sistema FIRJAN, através do SESI-RJ e do SENAI-RJ, o BNDES, a PETROBRAS e a Associação dos Amigos do Theatro Municipal – AATM. Foi utilizada uma equipe de 14 restauradores, coordenados por Márcia Sampaio Barbosa e orientados por Edson Motta Júnior, cujo pai, na década de 70, já havia restaurado a monumental tela.

É de Armando Mariante Carvalho, idealizador do projeto de restauração do Pano de Boca, o texto:

“...Dotada de incrível vivacidade e tecnicamente perfeita, a obra é um grande e eloqüente retrato de época da sociedade brasileira, com destaque para inúmeras personalidades históricas. Suas cores, seus matizes, seu equilíbrio são notáveis.”

O Pano de Boca encontra-se montado num chassi de estrutura metálica, cujo mecanismo de elevação é o mesmo da época de inauguração do Theatro. Tendo em vista a complexidade desse mecanismo e os pequenos danos que podem se causados à obra em cada descida, o Pano de Boca somente é mostrado ao público nas estréias dos espetáculos.