Foyer

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Inaugurado o Theatro Municipal em 14 de julho de 1909, somente ao final de 1912 é aberto concurso para as decorações internas do “foyer”. Concorrem Eliseu Visconti e Rodolpho Amoedo, este com três estudos hoje pertencentes ao Museu Nacional de Belas Artes. Visconti apresenta um estudo a óleo, de 51 cm x 79 cm (acervo do Museu dos Teatros/FUNARJ) e é selecionado “dada a superioridade da concepção do conjunto” (Pedro Xexéo em “Teatro Municipal 90 anos”).

Mais uma vez, face às dificuldades de conseguir local de dimensões compatíveis, mas principalmente pela falta de modelos profissionais, parte Visconti para Paris em 3 de junho de 1913, onde aluga um terreno na Rua Didot, nº 102, e constrói um barracão que será utilizado como ateliê.

A decoração do foyer seria composta por um grande painel central medindo 16 m x 7 m, representando “A Música”, e por dois painéis laterais, menores, com aproximadamente 6 m x 4 m cada, simbolizando A Arte Lírica (Inspiração Musical) e O Drama (Inspiração Poética).

No painel central, “Visconti usou vários estilos e procedimentos artísticos – o pontilhismo ou divisionismo, o Art-Nouveau e, sobretudo, o simbolismo, frutos de sua formação no Brasil e na França – para compor uma sinfonia de cores e formas em que vários nus femininos se movimentam num ritmo ondulante”. (Valéria Ochoa Oliveira).

“A predominância desse nu esvoaçante não se vê só em teatros, nem nesses exemplos de trabalho de Visconti. Nessas obras do pintor, todavia, ela se coaduna com a própria expressividade musical e rítmica, com os contornos e curvaturas elegantes e as vibrações das sonoridades, em plena época de Debussy e do impressionismo. A técnica do artista nessas obras, no geral divisionista e com o uso de roxos, azuis, rosas ou avermelhados suaves, culmina na obra prima que é o teto do foyer.” (Mario Barata – Catálogo da Exposição Eliseu Visconti e a Arte Decorativa – 1983).

E Mário Barata conclui:

“O seu preparo, a sua adequação para a tarefa que executou no Teatro Municipal do Rio de Janeiro fez do interior do edifício um centro artístico vital do primeiro terço do século XX brasileiro, continuando como foco de permanente beleza e autêntica sensibilidade, elaborado no País, com alta qualidade e surpreendente vibração, quase sem igual entre nós.”

Frederico Barata e José Roberto Teixeira Leite, em diferentes épocas, também consideraram o foyer como obra prima da pintura decorativista em nosso País (Biografia – 1901-1920). Para Flexa Ribeiro, em artigo publicado no Jornal do Commercio em 1950, Eliseu Visconti poderia figurar, com a obra do Teatro Municipal, na pauta da história da arte, entre as poderosas naturezas da pintura mundial de nossos tempos.

A dissertação de mestrado de Valéria Ochoa Oliveira teve por objeto o painel central do foyer do Teatro Municipal, de Visconti. A pesquisa se propôs a investigar a identificação das figuras que compõem o grande painel e a sua simbologia, buscando uma ligação da pintura com o momento cultural do fin-de-siécle. Valéria encontra na obra de Visconti elementos da mitologia greco-romana, com procedimentos e estilos de arte moderna. Em profunda pesquisa, Valéria norteia o desenvolvimento de seu trabalho na hipótese principal de que as figuras representadas no painel central “A Música” referem-se às nove Musas, às Três Graças e a Apolo, identificadas nas figuras de maior tamanho que dominam a composição.

“A busca de sentido pessoal de Visconti, às vésperas da Primeira Grande Guerra, num mundo em crise, se realizava através da arte, “a grande Consoladora” (como Visconti denominou a arte em carta a Francisco Oliveira Passos). O painel com suas Musas, as Três Graças e Apolo – onde a figura central é a musa Polímnia, tocando uma enorme lira e com grandes asas abertas, que remetem aos anjos ou aos pássaros – expressa a simbologia que o artista pretendia: o símbolo das asas é o mais apropriado para representar o desejo de transcendência, a capacidade de voar pelo universo, de libertar-se das amarras e encontrar sentido num mundo idealizado, acima das dificuldades e dores terrenas.

O painel foi a forma encontrada pelo artista para trazer este sentido a si próprio e aos visitantes do Teatro Municipal: edifício suntuoso, erguido durante as reformas urbanas de Pereira Passos – época de grandes contradições político- sociais – e um dos signos da modernidade no Rio de Janeiro.” (Valéria Ochoa Oliveira).

Os trabalhos de Visconti para o foyer, que já haviam sido interrompidos em Paris pela ameaça da invasão alemã, no início da Primeira Guerra, sofreriam nova ameaça dos submarinos alemães, ao serem transportados para o Brasil em dezembro de 1915. No dia 18 de março de 1916, Visconti concluiu a colocação dos trabalhos no Theatro, e em 5 de abril do mesmo ano partiu para encontrar-se com a família que havia deixado em Paris.

“Não creio, porém, que a sua técnica, a serviço da visualidade, tenha jamais obtido efeitos tão brilhantes como no centro desse painel (do foyer), que é como o pólen de uma grande flor, pólen rico em ouro, que se confunde com as pétalas em redor, numa gradação de tons acentuadamente rósea para a direita, e azulada para a esquerda. Diante da grande tela, os profissionais admirarão a correção dos desenhos, a segurança das atitudes, o efeito harmônico da composição; os poetas se perderão em devaneios da sua própria subjetividade posta em vibração pelo efeito sugestivo das linhas e formas; mas o grande público de tendências artísticas se embevecerá, sobretudo, com a riqueza e harmonia do colorido.” (autor desconhecido – recorte de jornal de 1915). Entre fevereiro de 2009 e abril de 2010 foi executada a completa restauração das pinturas do “foyer” do Theatro Municipal. As obras de Visconti do “foyer”, principalmente os painéis laterais, estavam em lastimável estado, atingidas pelas infiltrações na cúpula do Theatro. Antiga reivindicação do Projeto Eliseu Visconti, a restauração dos painéis do foyer foi incluída nas obras de recuperação do Theatro, no ano de seu centenário. Com a coordenação da Holos Consultores Associados, os trabalhos foram desenvolvidos pela equipe de Maria Cristina da Silva Graça. As demais pinturas de Eliseu Visconti no Theatro - pano de boca, plafond e friso sobre o proscênio - também foram objeto de reparos e limpeza, trabalhos executados pela equipe de Humberto Farias de Carvalho. Todos os trabalhos de restauro contaram com a consultoria dos Professores Edson Motta Júnior e Cláudio Valério Teixeira.