A Arte Aplicada de Visconti

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No Catálogo da exposição “Eliseu Visconti e a Arte Decorativa”, de 1983, Irma Arestizabal apresenta os trabalhos de Visconti, classificados em cinco grupos:

- A Natureza Como Tema; - Luminárias e Ferros; - Artes Gráficas; - Cerâmicas e Vidros; - Ex-libris, Selos e Emblemas.

Sua apreciação sobre a obra de Visconti está resumida a seguir, junto com as imagens dos trabalhos mencionados.

“O nome de Eliseu Visconti, tantas vezes estudado e louvado como pintor, está também intimamente ligado ao desenho gráfico e à indústria. Antes de sua viagem à Europa (1893), Visconti já tinha recebido prêmios pelos seus trabalhos de ornatos. A arte aplicada produzida nos Liceus de Artes e Ofícios do Brasil repetia, no entanto, os modos da arte dita culta, herança da academia instituída pela missão francesa de 1816. Por outro lado, na Escola de Belas Artes, o ensino das artes decorativas praticamente não existia.

É na Europa que Visconti, espírito aberto e inquieto, começa a estudar, sistematicamente, arte decorativa e a conviver e adquirir as teorias de vanguarda... Em Paris, Visconti assiste às aulas de Eugéne Grasset, considerado uma das mais destacadas expressões do proto art-nouveau, conhecedor da obra de Viollet-le-Duc e da tradição inglesa de William Morris, graças, principalmente, à influência direta de Walter Crane.

...Eliseu Visconti prepara, a seu regresso da Europa, uma exposição na Escola de Belas Artes. Expõe pintura e arte decorativa segundo a idéia da unificação das artes... O ambiente no Rio de Janeiro não era muito propício para este tipo de experiências. Como bem observara Gonzaga Duque (ver fortuna crítica), o esforço de Eliseu Visconti não foi aproveitado pelas indústrias, só Américo Ludolf tentou diversas vezes associá-lo na produção de cerâmica.

Devemos notar que o interesse de Visconti pelo desenho não foi um entusiasmo momentâneo mas esteve presente em diversos momentos da sua atividade, tanto na Europa como no Brasil, acompanhando a espaços irregulares, toda a sua produção considerada principal.

Efetivamente Visconti produz “selos”, “ex-libris” e “emblema para a Biblioteca Nacional” (1904). Expõe “cerâmica” em 1903, pintura e arte decorativa. Durante a confecção das cerâmicas para o Salão Assyrius do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, visita a fábrica de Emile Müller em Ivry Port. Desenha os “selos do Centenário da Independência” (1921), faz uma nova mostra com seus trabalhos de Artes Decorativas na Galeria Jorge (1926). Em 1931 é convidado a redesenhar o “brazão da cidade do Rio de Janeiro” e em 1934 começa a lecionar no curso de extensão universitária que funcionava junto à Escola Politécnica, um curso de Arte Decorativa nos mesmos moldes daquele de Grasset. “A Arte Decorativa é possuidora de um domínio inesgotável. São infinitas as combinações que dela podemos tirar” (Eliseu Visconti-1934).

Folheando os cadernos de Visconti descobrimos um mundo cheio de vida; rabiscos, desenhos rápidos, esboços que depois vão evoluindo até converterem-se em desenhos terminados, em obras realizadas. Às vezes vemos dois ou três temas superpostos com anotações dos lados; selos e luminárias, nus e cerâmicas, anotações de viagens, comentários sobre história da arte e educação em francês, italiano e português. Visconti admira a arte japonesa, copia Leonardo, comenta Ruskin, compara Rafael a Giotto, Leonardo a Rembrandt. Escreve “sem pesquisa, sem procura, não pode existir nenhuma criação nova”.

O que mais impressiona na obra de Visconti é a variedade que apresenta, explorando seguidamente os mesmos temas (Ligia Martins Costa) sobretudo a natureza e a mulher.

A natureza é a grande fonte para a criação Art-Nouveau. O desejo latente que os trabalhos de arte sejam criados da mesma forma que a natureza cria as suas criaturas está simbolizado na “capa que Visconti idealiza para sua exposição de 1901”. Toda a força orgânica do vegetal está presente na roseira que cresce abraçando a pintura e a arte decorativa, no tronco, galhos sutis que se elevam escrevendo, como “volutas de fumo”, o nome do artista. O tronco principal divide-se em dois galhos de onde crescem quatro estupendas figuras vegetais que se elevam entre folhas e flores, tocando gaita e pandeiro, e dançando. Por cima da faixa, onde se lê o nome da Escola de Belas Artes, um galho se eleva assimetricamente para fora da composição.

Os artistas Art-Nouveau preferiam plantas lineares que não produzissem sombras, plantas exóticas, muitas desconhecidas até a abertura das fronteiras do Japão.

Em dois desenhos, “Desenho Para Cache-pot” e “Bas de Portière”, Visconti nos mostra íris esbeltos, femininos, curvilíneos e sensuais, todos valores do gosto Art-Nouveau.

Já no Brasil estudara as plantas típicas oferecendo-nos criações como o “emblema para a Biblioteca Nacional”, onde o maracujá sobe ondulante entre livros e símbolos, e a estupenda cerâmica criada para Ludolf, “Vaso decorado com flores de maracujá”.

Em muitas ilustrações a mulher é o tema dominante. Se nos aparece sempre jovem e esbelta, pálpebras caídas, cabelos compridos e ondulados, gesto sensual nos lábios, expressivo movimento das mãos. Nos selos, nas ilustrações, nas propagandas, Visconti se aproveita sempre da qualidade decorativa do perfil e da cabeleira feminina, o pescoço inclinado, a face oval e as linhas curvas tão apreciadas à época (“Estudo para cartaz – Pano de Boca do Cassino Antártica na Urca”).

Num caderno de Visconti lemos “evitar numa composição a igualdade de massas”. Observando os seus desenhos vemos que muitas vezes acentua a composição sobre o lado direito como na ”capa do Anuário Fluminense”, onde as três deliciosas cabeças femininas criam, no primeiro plano, a curva que se contrapõe à reta da árvore do fundo.

Consegue essa diversidade de massas também colocando figuras maiores de um lado, como no “desenho da Música”, na “capa da Revue du Brésil” ou no anúncio da Casa Bevilacqua.

Freqüentemente uma linha serpenteia no fundo da composição, como num dos “cartazes da Antártica” e na cerâmica “O Amor”. Esta solução também era aplicada felizmente na pintura, como na paisagem pré-rafaelista do lado esquerdo do “Martírio de São Sebastião”.

Visconti tem também marcada predileção pelos retângulos alongados, nos quais o desenvolvimento se faz no sentido das verticais, com céus reduzidos e linha do horizonte alta com o que evita os truques da perspectiva linear.

Figura humana e paisagem são como que constantes alternadas de toda a sua vida. Onde os dois gêneros se combinam, a tendência é para a figura ser absorvida na paisagem. “Aliás, essa tendência a absorver a figura na paisagem, a transubstanciar o homem em vegetal, em trama colorida, em flor, podia ser inconsciente no artista, mas o acompanhou em todas as suas fases”. (Mário Pedrosa em “Visconti diante das modernas gerações” – Correio da Manhã – 01/01/1950).

Na obra de Eliseu Visconti sentimos como o artista é coerente com o culto à liberdade imaginativa de caráter pessoal próprio do Art- Nouveau. Lemos em um de seus cadernos: “A arte é uma linguagem universal, mas cada um a fala com o sotaque que lhe é pessoal”. E analisando sua obra, verificamos como Eliseu Visconti desenha pessoalmente grades, tecidos, papéis de parede, cerâmicas, vitrais, cartazes e ilustrações diversas.