6º Período - 1931 - 1944 - Neo-Realismo Com Acentuada Procura De Atmosfera E Luminosidade (Brasil)

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“E' o chamado 'Período de Teresópolis '. Visconti se eleva a novos cumes em sua arte. Suas paisagens, a que até então não faltava luz, ganham extraordinariamente em atmosfera. O ar tem vida, tem movimento. Geralmente uma bruma suave arrefece os contornos, o que não impede, entretanto, que as flores vermelhas no primeiro plano se destaquem com violência. Voltam as roupas nos varais a encantar o artista, que não raro alcança efeitos surpreendentes com esse tema, como em 'Roupa estendida', de 1943. As sombras se abrandam, e as linhas de horizonte, geralmente formadas por montanhas altas e recortadas, sobressaem-se no céu de nuvens. Animam as paisagens pessoas de sua família e crianças dos arredores. A tonalidade e a compacidade de suas tintas variam. Claras e fluidas, ou mesmo quase monocrômica em azul claro, obtendo o mais belo efeito de neblina, como em 'Pombos do Meu Atelier'; ou sóbrias nas gamas de cinza e oca, trabalhando a espátula em pasta compacta como “Revoada de Pombos', do Ministério da Educação e Saúde.

Retrata amigos, os filhos, a si próprio, em fatura cada vez mais larga, luz e sombras bem manchadas em pinceladas sobrepostas, o colorido frio nuns, mais quente noutros. Salienta-se a série de auto-retratos, magnífica na liberdade de técnica.

Chega, no entanto, a qualquer coisa nova quando executa o 'Retrato do Sr. Cícero Peregrino da Silva', 1943, do patrimônio do Museu Nacional de Belas Artes. Abandona os tons que usava e concentra-se numa modulação simples de castanhos. Ganha em capacidade emotiva. A superposição de tons, que já aplicava anteriormente, é agora distribuída em áreas maiores, o que faculta uma vibração discreta a essa figura abatida pelos anos.

Em 'Quaresmas', sua procura no sentido de obter o máximo de atmosfera e luminosidade é coroada de êxito. Alia o divisionismo à pincelada corrida, e logra, não só a vibração do ar pela cintilação das quaresmas variadamente coloridas, como ainda a calma repousante da cena familiar no primeiro plano. A roupa no varal, em pinceladas largas, reflete esplendidamente a luz coada por entre as flores luminosas. Em 'Três Marias', aplica ao retrato uma técnica um tanto semelhante, mas de colorido tão sóbrio como o “Retrato do Sr. Peregrino da Silva”. Não se limita aos 'terras', entrando pelos 'lacas'. Sob o fundo divisionista livre, mas também sóbrio de cor, essas tonalidades sérias adquirem uma luminosidade dourada apreciável, que ilumina a tez morena das cabeças sabiamente manchadas. Ilumina por dentro, em claro-escuro imprevisto e estranho. São retratos, porém tal é a transposição efetuada pelo pintor, que nos parece imagens de uma concepção de visionário.

Pena ter a morte surpreendido o artista quando em sua nova procura – o que nos reservava ficará para sempre velado aos nossos olhos.”

Estava certa Lygia Martins Costa ao imaginar nova procura de Visconti, pois ao invés da esperada estagnação na velhice, o pintor jamais parou de evoluir, chegando no fim da vida aos ensaios abstracionistas de “Revoada de Pombos”. Não foi pois sem razão que o professor e museógrafo americano Stanton Catlin, especialista em arte latino-americana, selecionou Eliseu Visconti, ao lado de Tarsila do Amaral e Vicente do Rego Monteiro, para representar o Brasil como pioneiro, na exposição dos “Precursores da Arte na América: 1860-1930”, organizada na cidade de Nova Iorque pelo “Center for Inter-American Relation”.