Sobre o pintor

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Eliseu d’Angelo Visconti nasceu em 30 de julho de 1866 na comuna de Giffoni Valle Piana, província de Salerno, Itália. Em 1873, imigra com sua irmã Marianella para o Brasil, indo diretamente para a fazenda de propriedade de Luiz de Souza Breves, o barão de Guararema, em Além Paraíba. A profunda afeição da Baronesa pelo pequeno Eliseu coloca-o ainda jovem estudando no Rio de Janeiro. Após um frustrado início na música, ingressa em 1883 no Liceu de Artes e Ofícios. Dois anos depois, sem abandonar o Liceu, matricula-se na Academia Imperial de Belas Artes, tendo como professores Zeferino da Costa , Rodolfo Amoedo, Henrique Bernardelli, Victor Meirelles e José Maria de Medeiros.

Em 1890, Visconti acompanha o grupo dos “modernos”, formado por professores e alunos que se rebelam contra as normas de ensino e abandonam a Academia de Belas Artes para fundar o “Ateliê Livre”. Aprovadas as reformas pelo governo republicano, a Academia transforma-se na Escola Nacional de Belas Artes. Visconti volta a freqüentá-la e, após concurso, recebe em 1892 o primeiro prêmio de viagem ao exterior concedido pela República.

Em Paris, ingressa na École Nationale et Spéciale des Beaux-Arts e cursa arte decorativa na École Guérin, com Eugène Grasset, um dos expoentes do art nouveau. Viaja a Madri para cumprimento de suas tarefas de bolsista, onde realiza cópias de Diego Velázquez, absorvendo soluções para os efeitos de reflexão da luz natural, mais tarde utilizadas em alguns de seus trabalhos. Na capital francesa, expõe consecutivamente nos salões de arte e, após receber Medalha de Prata na Exposição Universal de Paris de 1900 por suas obras Oréadas e Gioventú, Visconti regressa ao Brasil. Naquele momento, não foi possível trazer consigo a jovem francesa Louise Palombe, companheira desde 1898 e com quem Visconti ficaria casado pelo resto de sua vida. Louise se tornaria figura marcante e inspiradora da obra de Visconti.

No seu período de formação na França, Visconti, espírito aberto às inovações, modifica sua pintura tanto na temática quanto na execução da composição, adquirindo as técnicas do impressionismo e assimilando as leituras contemporâneas do simbolismo e do art-nouveau. Mas Visconti utilizaria esses estilos de forma muito pessoal, e sua opção por novas linguagens não significou um rompimento com a tradição nem com os ensinamentos adquiridos no Brasil.

Em 1901, Visconti organiza sua primeira exposição individual na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Além das telas a óleo trazidas da França, expõe os trabalhos de design, resultado de seu aprendizado com Grasset. Em 1903, leva sua exposição a São Paulo e participa com 16 projetos do concurso de selos postais organizado pela Casa da Moeda. Os projetos de Visconti vencem o concurso e são publicados com elogios no Brasil e no exterior, inclusive na revista francesa “L’Illustration”. Mas os selos de Visconti jamais seriam impressos, o que causou grande mágoa ao artista. A pioneira incursão de Visconti pelo design incluiu ainda cartazes, cerâmicas, tecidos, papéis de parede, vitrais e luminárias.

Aquela primeira exposição de Visconti, que teve boa acolhida apenas entre os críticos da época, seria em parte responsável pelo convite que lhe fez o prefeito Pereira Passos, em 1905, para executar todas as pinturas da sala de espetáculos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Pesou também no julgamento do prefeito o fato de Visconti estar em Paris acompanhando as inovações artísticas à época. As decorações, executadas em Paris entre 1905 e 1907, seriam consideradas por Visconti sua mais importante obra.

De 1908 a 1913, Visconti é professor da cadeira de Pintura na Escola Nacional de Belas Artes, cargo a que renuncia para retornar à Europa e realizar a decoração do foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sua obra prima, concluída em 1916. No mesmo período em que trabalhava no “foyer” e nos anos seguintes em que permaneceu em Paris, Visconti executa as paisagens impressionistas de Saint-Hubert, vilarejo na França onde residia a família de Louise. Para Mário Pedrosa, com as paisagens de Saint- Hubert e com as que mais tarde faria em Teresópolis, Visconti é

"o inaugurador da pintura brasileira, o seu marco divisório. Nasce uma nova paisagem na pintura do Brasil {...}. Foi pena que o movimento moderno brasileiro, no seu início, não tivesse tido contato com Visconti. Os seus precursores teriam tido muito que aprender com o velho artista, mais experimentado, senhor da técnica da luz, aprendido diretamente na escola do neo-impressionismo."

Após 1920, Eliseu Visconti não mais deixaria o Brasil. A fluência nas diversas técnicas e a maestria com que administra o uso das cores associado aos efeitos de luz tornam-se uma característica de suas telas. Participa do processo de contínua modernização urbana da cidade do Rio de Janeiro, executando importantes decorações para a Biblioteca Nacional, para o Palácio Tiradentes e para o Palácio Pedro Ernesto.

Em 1922, é agraciado com a Medalha de Honra na Exposição Comemorativa do Centenário da Independência. Acompanha com interesse os acontecimentos da Semana de Arte Moderna, para a qual não foi convidado. Pietro Maria Bardi comentaria: “Esqueceram o único realmente moderno de sua época, que era Visconti”.

Realiza na Galeria Jorge, em 1926, nova exposição de design, reapresentando os trabalhos antigos e expondo agora os selos postais premiados em 1904, bem como o ex-libris e o emblema da Biblioteca Nacional. No ano seguinte, inicia sua fase de paisagens de Teresópolis, cheias de atmosfera luminosa e transparente, de radiosa vibração tropical.

O alargamento do palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em meados da década de 1930, iria proporcionar a Visconti um retorno às emoções da mocidade. O artista executa um novo friso sobre a boca de cena, em perfeita harmonia com as demais decorações. Nesse mesmo período, entre 1934 e 1936, leciona no curso de extensão universitária de artes decorativas da Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Para Guilherme Cunha Lima, tem início então, com Visconti, o ensino de design no Brasil.

Prosseguiria Eliseu Visconti na busca incansável pelo novo, evoluindo em sua técnica e desconhecendo estágios de decadência. Entretanto, três meses após ser golpeado na cabeça em um assalto ao seu ateliê, falece o artista em 15 de outubro de 1944, aos 78 anos de idade.

A atualidade de Visconti permanece, retratada em obras com tal grau de versatilidade que, se o colocaram como o mais expressivo representante do impressionismo e como pioneiro do nosso design, revelam sua capital importância dentre os artistas que anteciparam a modernização da arte brasileira.

Texto de Tobias Stourdzé Visconti, transcrito do Catálogo da Exposição "Eliseu Visconti - A modernidade antecipada", realizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo, em 2011, e no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 2012.